Minha programação incluiu 2 vulcões de aclimatação, vários dias de descanso, e os 4 picos mais altos do Equador, inclusive 1 acima de 6 mil metros, e 1 montanha técnica. Sabia que a possibilidade de culminar todas era pequena, até por conta das condições climáticas que tem derretido as geleiras equatoriais e gerado uma série de problemas para os montanhistas. Além disso, não consegui treinar tão intensamente quanto gostaria por estar terminando meu projeto de TCC. Mas o pior de tudo, claro, são as coisas sobre as quais não temos controle, e este janeiro no Equador foi, na opinião de praticamente todos os guias que conheci, uma das piores temporadas dos últimos anos. Muita chuva, muito vento, muito calor, e consequentemente pouca neve nas montanhas, e de má qualidade, tempestades e empecilhos mil pra todo mundo que estava lá. Pouca gente culminou alguma coisa, e o sentimento geral entre quem estava lá pra escalar era de total frustração.
Nossa primeira caminhada foi até a cratera Paluluhaua, uma das poucas crateras habitada do mundo. Em vez de subirmos, vamos de carro até 3000m, e descemos até a cratera onde existem umas fazendinhas. Nesse dia deu canseira, mas era o começo, então aceitável.
A segunda etapa da aclimatação foi o vulcão Pasochoa, pertinho de Quito. Também vamos de carro até certo ponto, e de lá caminhamos algumas horas até seu cume (4200m), que é a parte mais alta da borda erodida. De lá de cima de um lado vemos Quito, e do outro a cratera já toda cheia de floresta, mas é uma visão bem bonita do contraste entre as gramíneas, a erosão da rocha, e o matagal embaixo.
A terceira parte foi o vulcão ativo Guagua Pichincha (4774m), no dia 31 de dezembro. De novo, vamos de carro até a base, caminhamos por uma estradinha até um refúgio, e de lá tomamos uma trilha até o cume, andando pela borda. Esse dia estava bem nublado e com muito vento, então quando finalmente culminamos, ficamos bem pouco tempo até por conta dos gases que saem do vulcão, bem fedidos por sinal…
Felizmente ninguém do grupo queria fazer festa no ano novo, então demos um rolê no final da tarde pra ver o começo da festa, jantamos e fomos dormir cedo.
Antes de ir pra Cayambe tivemos um dia de “descanso” (descanso do que?), onde iríamos pro mercado de Otavalo. Mas como o único dia do ano em que o mercado não funciona é 1º de janeiro, mudamos os planos e fomos pra Oyacachi, uma cidade bem pequena no lado amazônico dos Andes, mas com termas vulcânicas. Passamos a tarde lá, dormimos na hacienda mais antiga do Equador, e depois fomos pro refúgio.
Que estradinha dos infernos! Pior que essa só a que vai pro Monte Kenya. Já em torno de 4400m pegamos um misto de chuva e neve, e logo depois chegamos ao refúgio, onde o tempo estava totalmente fechado. Nesse primeiro dia, dentro do refúgio mesmo, fizemos alguns procedimentos de encordamento e auto resgate. O vento e chuva continuaram fortes por toda a tarde e noite. No dia seguinte o belga não estava muito bem e resolveu ficar no refúgio. Eu e a britânica tomamos coragem e fomos pra geleira fazer treinamento.
Não deu 5 minutos que saímos do refúgio e já estávamos ensopadas. Mas mesmo com a chuva e vento, minha luva de softshell ter aberto a costura e molhado tudo a minha mão, me diverti fazendo a aula na geleira. Tipo criança no parquinho, e se pudesse ficava mais… uma besta mesmo… minha falta de noção é impressionante até pra mim, mas enfim. Voltei toda feliz pro refúgio, torcendo pro tempo melhorar pra podermos sair na noite e atacar o cume.
Mas não melhorou. Fomos dormir cedo e acordamos meia noite pra ver como estava o tempo lá fora. Muita chuva e muito vento. Como decisão de grupo, e tendo já saído durante o dia, decidimos que não ia ser nem um pouco divertido ficar 12h nesse tempo, então voltamos pra cama. Cayambe, a primeira baixa da viagem.
Apenas um grupo com um alemão muito obstinado saiu (ele chegou a ter uma discussão com o guia, que já que tinha pagado, ia ter que sair e chegar no cume… blá blá blá… summit fever total), mas demoraram o dobro do tempo normal pra chegar na geleira, e voltaram em algumas horas. Tinha até uma guia britânico meio famosinho, desses patrocinados e que já fez Everest X vezes, com um cliente só, e ele mesmo não via sentido em sair com esse tempo. Fiquei frustrada, mas no clima a gente não manda, e não tinha o que fazer. Foi um aprendizado que mais cedo ou mais tarde aconteceria, então me conformei, afinal de contas, a montanha não vai sair de lá.
Quando acordamos de manhã, tudo em volta do refúgio estava coberto de neve. Teve uma tempestade durante a madrugada, e nevava muito de manhã. A estrada estava com bastante gelo, e a passagem por um precipício, com o jipe pesadíssimo e a terra congelada e escorregadia, foi talvez o momento de maior terror da viagem inteira.Tivemos mais um dia de descanso (descanso do que mesmo?) numa hacienda. No dia seguinte partimos para o Tambopaxi, uma pousada com cara de refúgio já dentro do PN onde fica o Cotopaxi. Nesse dia o tempo já estava melhorzinho, e dava pra ver o cume da montanha. Estávamos todos bem animados, com aquele feeling de que ia dar tudo certo, até porque tínhamos um dia de contingência, então se não desse certo na primeira tentativa, poderia dar certo na segunda.
No dia seguinte saímos cedo do Tambopaxi, em direção ao refúgio. Estacionamos a 4600m, e de lá subimos a pé com as mochilonas (uns 14kg) até 4800m. Cansativo mas deu pra fazer, foi uma breve experiência pra ter noção do que seria fazer uma aproximação de expedição, sem carregadores. O refúgio do Cotopaxi recebe muitos turistas, então o andar de baixo é uma zona de gente e criança correndo pra lá e pra cá. No andar de cima só entram escaladores, então é um pouco mais tranquilo e dá pra descansar. Almoçamos maior merreca de comida, e eu já de saco cheio de comer frango, me lembrei de quando estava no Peru, onde passei 40 dias comendo pollo con papas. Trauma! De tarde saímos pra fazer mais treinamento na geleria, e lá estava eu toda alegre na neve e gelo tipo criança quando ganha doce no parquinho. Meu doce é o crampon! Minha gangorra é a piqueta! Meu trepa-trepa é a montanha! Hahaha! Agora sério…
Como o Cotopaxi é a montanha mais “popular” do Equador, o refúgio é bem cheio e muito barulhento, então foi difícil dormir, e pouco depois que consegui dormir, já acordei de novo pra começar o ataque. De novo, não estava muito frio, talvez 0 graus à meia noite. Foi mais ou menos 1h30 de caminhada até o começo da linha da neve, e de lá até o começo da geleira, onde logo de saída, já tinha uma subida super íngreme. O bom é que como é muito frequentado, as trilhas são bem marcadas e a neve acaba bem compactada, o que facilita bastante a vida de todos. Ajudou que o céu estava limpasso, e a lua parecia enorme, bem perto de nós, uma visão inesquecível! Em compensação não parava de ventar, o que não é lá muito agradável, mas considerando que o tempo no país tava uma merda, pra mim tava ótimo!
A subida é uma sucessão de zigue-zagues e alguns cruzamentos de greta, mas nada muito assustador. Os momentos de emoção são quando temos que entrar dentro de uma greta pra depois subir meio que escalando com ajuda de uma corda, depois outro momento em que engatinhamos por uma passagem bem apertada e de gelo e com bastante exposição, e por último passamos por baixo de um serac também bem exposto. Lógico que na subida tá tudo escuro, então nem dá pra ter muita noção de perigo, mas na volta é que a gente olha pra baixo e vê aquelas encostas brancas que não tem fim, e daí a gente se liga do entorno. Bem perto do cume tem uma parte de uns 50 graus que tivemos que subir de front pointing também, depois mais umas subidinhas, e finalmente, às 7h50, depois de muito esforço, vento na cara o tempo inteiro, e andar num ritmo maluco (o guia indo na frente muito rápido, a britânica no meio muito devagar, e eu por último sem saber como manter um ritmo constante) chegamos no cume do Cotopaxi. O tempo estava meio fechado e não deu pra ver a cratera inteira, e eu estava tão cansada que nem tirei muita foto. Minha mochila tava coberta de gelo e não consegui achar minha bandeira, então tirei a foto mental e pra mim isso basta. Comi um chocolate, bebi água, tiramos umas fotos e começamos a descer. Pelo menos desta vez era só cansaço. Não tive dor de cabeça nem tontura, no quesito aclimatação, tava tudo perfeito. O que fez falta foi o treino mesmo (maldito TCC)…
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