Senador e banqueiro teriam oferecido R$ 4 milhões ao ex-executivo
Documento do Ministério Público Federal revela que o senador Delcídio Amaral (PT-MS), em conluio com o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, ofereceu pagamento de R$ 4 milhões ao advogado Edson Ribeiro, contratado pelo ex-diretor internacional da Petrobras Nestor Cerveró, para que o investigado não firmasse acordo de delação premiada na Lava-Jato. A alternativa seria Cerveró assinar o acordo, mas não mencionar nem Delcídio ou Esteves nos depoimentos. A dupla teria pago R$ 50 mil a Bernardo Cerveró, filho do ex-executivo da estatal, em troca do silêncio do depoente. O restante da família receberia a mesma quantia mensal como recompensa. O líder do governo no Senado e o banqueiro foram presos nesta quarta-feira, já o advogado, que está nos Estados Unidos, ainda não foi detido apesar de ter tido sua prisão decretada.
O dinheiro para arcar com as propinas viria de Esteves, dono do banco BTG-Pactual. Segundo o Ministério Público, o advogado de Cerveró, mesmo depois da decisão de seu cliente de firmar o acordo de delação premiada, foi cooptado por Delcídio. Os R$ 4 milhões foram acertados por ser o mesmo valor que Ribeiro acertou como honorários com Cerveró. Após a proposta, Bernardo Cerveró procurou a força-tarefa da Operação Lava-Jato em Curitiba para relatar a existência de pressões ao pai, que negociava a assinatura de um acordo de delação premiada. Fontes com acesso às investigações relatam que ele mencionou a ofensiva contra o pai por parte de uma autoridade com foro privilegiado, sem menção direta ao líder do governo no Senado.
Os esforços de Delcídio, no entanto, foram em vão. Na delação premiada, Cerveró denunciou que o senador teria obtido vantagem nas operações da Petrobras da contratação de sondas e da compra da refinaria de Pasadena. Esteves, por sua vez, foi mencionado quando Cerveró afirmou que o BTG-Pactual teria dado dinheiro ao senador Fernando Collor (PTB-AL) em operação de embandeiramento de 120 postos de combustíveis em São Paulo.
A revelação sobre a oferta de R$ 4 milhões e de uma mesada de R$ 50 mil foi feita pelo ministro Teori Zavascki, relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). Por unanimidade, a Segunda Turma do STF, composta de cinco ministros, confirmou na manhã desta quarta-feira a decisão tomada na terça-feira pelo ministro. O colegiado considerou gravíssima a acusação do Ministério Público Federal de que o parlamentar tentava obstruir as investigações sobre o esquema de desvios de dinheiro da Petrobras.
- Essas pessoas não estão medindo esforços para interferir nas investigações da Lava-Jato - declarou o ministro Teori Zavascki.
Zavascki queria que o colegiado referendasse sua decisão de prender Delcídio. Pela Constituição Federal, um parlamentar só pode ser preso antes de condenado em caso de flagrante. Para o ministro, a tentativa do senador de obstruir as investigações da Lava-Jato revela o flagrante.
FUGA PELO PARAGUAI
Ainda segundo o Ministério Público Federal, Delcídio participou de reunião em que foi planejada a fuga de Cerveró para a Espanha, porque o investigado tem cidadania espanhola. O senador chegou a sugerir uma rota pelo Paraguai e também o tipo de avião que o transportaria até o país europeu.
Outro motivo que levou o ministro a mandar prender o senador foi o fato de que, em reunião com o advogado de Cerveró, Delcídio teria prometido que o STF libertaria o réu. Ele disse que há tinha conversado com Zavascki e com o ministro Dias Toffoli, presidente da Segunda Turma, sobre a concessão de habeas corpus. E prometeu que pediria ao vice-presidente Michel Temer e ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que falassem com o ministro Gilmar Mendes sobre o tema.
Delcídio também teria prometido conversar com o ministro Edson Fachin sobre a concessão de um habeas corpus ao ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, outro delator da Lava-Jato. A intenção era anular todas as investigações a respeito de Paulo Roberto sobre desvios da Petrobras. Para Zavascki, é impressionante “a desfaçatez com que se discute a intercessão política na mais alta corte brasileira”.
— A intervenção de Delcídio Amaral perante o STF, ainda que não tenha persuadido ministros, revela conduta de altíssima gravidade — disse o relator da Lava-Jato.
Para o ministro, é importante manter o senador preso para que as investigações não sejam prejudicadas.
— A conduta revela que Delcídio Amaral não medirá esforços para embaraças as investigações da Lava-Jato — declarou.
Depois da fala de Zavascki, os outros quatro integrantes da Segunda Turma mantiveram a decisão do relator, por unânimidade, de manter a prisão do senador.
Perguntados se foram procurados por Delcídio para tratar de um habeas corpus para Ceveró, os ministros responderam:
- Não – disse Gilmar Mendes.
- Sobre este tema, nunca. Nunca conversei com ele (Delcídio) sobre este assunto – disse Toffoli.
Já o ministro Teori Zavascki não quis comentar o assunto.O Globo
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