DAVID BROOKS é o colunista que, nas páginas de opinião do The New York Times, faz o contraponto conservador aos valores liberais defendidos pela maioria de seus colegas e pelos editoriais do jornal. Como conservador, em geral alinha-se com o Partido Republicano, e em geral foi crítico do governo Obama, nestes últimos sete anos. Na semana passada, confessando logo no primeiro parágrafo estar tomado por "uma estranha sensação", publicou um artigo intitulado (I miss Barack Obama" (Sinto falta de Barack Obama). A atual campanha presidencial, segundo Brooks, revela um "declínio em padrões comportamentais" que, por contraste, realça as qualidades de Obama. Ele passa então a enumerar cinco virtudes do ocupante da Casa Branca:
1. Integridade. Comanda um governo livre de escândalos; o presidente e sua mulher, Michelle, "não apenas demonstraram superior integridade eles próprios, como atraíram e nomearam assessores com altos padrões pessoais".
2. Senso de humanidade. Aos despropósitos de Donald Trump contra os muçulmanos, Obama respondeu com a visita a uma mesquita, onde fez "maravilhoso discurso".
3. Clareza no processo decisório. Brooks diz já ter ouvido assessores se queixarem de decisões de Obama, mas ressalvando sempre que o presidente não deixou de considerar com atenção os pontos de vista contrários.
4. Elegância quando sob pressão. Mesmo no pior da crise econômica, Obama não perdeu o prumo.
5. Otimismo, Sua postura seria um antídoto contra a "pornografia do pessimismo" exalada pelos candidatos na atual campanha.
A enumeração de Brooks equivale a uma súmula das qualidades que se exigem de um homem público — e a um soco no estômago dos brasileiros. Quem, entre os atuais protagonistas de nossa cena política, passaria no teste dos cinco itens? Ou mesmo de três deles? Ou de um só? No item integridade, a presidente Dilma Rousseff, se pode alegar que nunca roubou, definitivamente não é uma governante que atrai e nomeia assessores com "altos padrões pessoais". Seu antecessor, nesse mesmo item, é um caso perdido, e temos ainda as figuras dos presidentes da Câmara e do Senado, ambos suspeitos de crimes. Acrescente-se, na Câmara, a pornográfica cumplicidade (para parodiar Brooks) com que a maioria dos deputados vai permitindo as manobras do inacreditável Eduardo Cunha.
Tome-se outro dos itens, a clareza no processo decisório e a atenção com que Obama ouve os assessores, mesmo quando defendem pontos de vista diferentes dos seus. Já entraram para a legenda negra da Presidência brasileira os maus modos da presidente Rousseff. Na última edição da revista Piauí a repórter Julia Duailibi conta que numa reunião ela calou um ministro aos gritos: "Quando você tiver 55 milhões de votos, você diz o que fazer!". Em outro item ainda, elegância sob pressão, recordem-se os temíveis "querido" ou "querida" assacados pela presidente contra os pobres repórteres quando não gosta da pergunta: "Não é isso, querido"; "Você não está entendendo, querida".
David Brooks é um conservador como não existe, no Brasil, com representação no espectro político. No Brasil, como lembra sempre Fernando Henrique Cardoso, citando Sérgio Buarque de Holanda, o que existe são agentes do atraso. Imagine-se o horror, para um conservador decente e culto, ver a disputa no partido com que em princípio se identifica liderada por tipos como Donald Trump e Ted Cruz, "Serei o presidente mais gerador de empregos que Deus jamais criou" disse Trump, após a vitória em New Ilampshire. Lembra os nossos familiares "nunca antes neste país" e "mais honesta alma viva". O reconhecimento de um adversário como Brooks é a maior das homenagens a Obama. A nós, brasileiros, um presidente que merece tal honraria dá muita Inveja. Resta, se serve de consolo, que nossa inveja pode virar vingança, se por lá eles elegerem Trump.
POR ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
Nenhum comentário:
Postar um comentário