Mendes conversou com EXAME antes de inaugurar uma unidade em São Paulo do Instituto Brasileiro de Direito Público, fundado por ele em Brasília na década de 90.
Exame - Com os fatos já revelados pela Operação Lava-Jato e com as pedaladas fiscais, a presidente Dilma pode perder o cargo?
Mendes - Tudo isso tem de ser examinado pelo Congresso Nacional. Mas, em tese, sim: os fatos poderiam levar a um impeachment. Até porque a responsabilidade política vai muito além da pessoal. Para caracterizar o crime de impeachment, não precisa haver um Fiat Elba ou dinheiro recebido em conta pessoal.
Basta o fato de, por ação ou omissão, um presidente ter deixado que crimes contra a lei orçamentária ou contra a probidade da administração ocorressem. Isso é possível provar com a indicação de pessoas que permitiram a prática, com a nomeação de envolvidos em casos de corrupção ou pelo fato de não demiti-los.
Exame - São vários processos que correm ao mesmo tempo: o de impugnação da candidatura de Dilma no Tribunal Superior Eleitoral, a discussão das contas reprovadas no Tribunal de Contas da União e a comissão agora instaurada no Congresso. Eles terão desfecho em 2016?
Mendes - Acredito que sim. É bom que se resolvam na primeira parte do ano. Mas os processos têm seu ritmo. Por exemplo, a admissão da ação contra a presidente no TSE tomou muito tempo, já poderíamos ter instaurado isso em março. A demora se justifica devido à complexidade do assunto.
É rara a abertura de um processo contra um presidente da República. Duas situações se colocam: o caráter especial da ação e a situação peculiar de conflito, com os ânimos acirrados. Mas é bom que haja um rápido encaminhamento para que as ações — e a instabilidade — não se eternizem.
Exame - Como o senhor compara a situação vivida agora com o impeachment do presidente Collor?
Mendes - Do ponto de vista econômico, a situação hoje talvez seja muito pior, porque estamos em um quadro de depressão econômica. Collor tinha menos apoio político na época do que tem a presidente Dilma.
Obviamente, os fatos ligados ao impeachment de Collor eram mais limitados e, na Lava-Jato, eles são imensamente mais graves. Basta ver os valores que já foram devolvidos para ter a dimensão do escândalo. É unânime que se trata do maior caso de corrupção do Brasil, talvez do mundo.
Exame - Quais são os reflexos do processo de impeachment na economia?
Mendes - O país vem sofrendo muito com a depressão econômica desde o início do ano. Não sei qual o reflexo imediato do impeachment e é difícil fazer uma estimativa de longo prazo.
A vantagem da abertura do processo é que se caminha para uma solução, algo positivo para as forças econômicas e sociais. E contribui para o fim de um estado de indefinição, malemolência e estagnação. Também é preciso haver uma repactuação política no país.
Exame - O caso das pedaladas fiscais mostra que temos de amadurecer em relação à transparência das contas públicas. O que pode ser feito?
Mendes - Temos de criar mecanismos de defesa do processo democrático para fortalecer a ideia de responsabilidade fiscal e minimizar o risco de pedaladas. Muitos países europeus fizeram seu dever de casa. A Alemanha é um exemplo, com uma lei de estabilidade econômica e financeira.
O Brasil trilhava um bom caminho com a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas as autoridades públicas perceberam que a legislação atrapalhava seus propósitos — e, por isso, vivemos nessa situação de déficit e de depressão econômica. Temos de retomar o caminho da responsabilidade fiscal para ter crescimento sustentável.
Exame - O que muda no Brasil com a Operação Lava-Jato?
Mendes - A Lava-Jato tem revelado um método de governança em que a corrupção é a forma de atuar politicamente. E, por isso, ela tem um significado extremo em termos institucionais. Sem a Lava-Jato, teríamos a possibilidade de eternização de um dado grupo no poder se alimentando nas burras das estatais, fatiando propinas entre partidos.
Felizmente houve essa descoberta. Por outro lado, temos no futuro o grande desafio de encontrar uma forma de governança que coloque as estatais a salvo desse tipo de ataque.
Exame - Na Operação Lava-Jato, existem gravações que indicam que políticos recorreriam aos ministros do Supremo para influenciar suas decisões. Isso de fato ocorreu?
Mendes - Diante do quadro de anormalidade em que vivemos, aparecem lobistas e pessoas que vendem prestígio fazendo esse tipo de insinuação. É claro que tais citações são indesejáveis, mas elas ocorrem.
Há advogados que dizem que têm facilidade aqui e acolá. Foi o que aconteceu no episódio lamentável envolvendo o senador Delcídio do Amaral. E o tribunal tem pouco a fazer a não ser lamentar e denunciar essa prática. Sempre haverá esse tipo de menção.
Exame - O debate sobre o papel do Estado na economia e na sociedade voltou à ordem do dia com todos os casos de corrupção recentes. A Constituição nos dá alguma luz sobre essa discussão?
Mendes - O texto constitucional sinaliza que o caminho a ser seguido é o de menor participação estatal. A criação de empresas estatais, por exemplo, só deve ocorrer em caso de necessidade estratégica para o país.
Veja o que aconteceu com a Vale, que foi privatizada, e com a Petrobras, estatal. Ambas empresas de grande porte, uma com a versão profissional e a outra com uma versão politizada. Esse deve ser o debate que devemos ter no futuro, quando o país voltar à normalidade. POR FLAVIA FURLAN
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