quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Omissão e cumplicidade

02/12/2015 - 01h10
A menos de uma semana para a eleição venezuelana, Nicolás Maduro ganhou um presentaço. Lá de Paris, Dilma Rousseff se apressou em declarar que não há razões para se aplicar a cláusula democrática e excluir a Venezuela do Mercosul. A presidente praticamente transformou em letra morta a dura e correta nota do Itamaraty de condenação do assassinato de um opositor e de cobrança de lisura no processo eleitoral daquele país. A dubiedade de Dilma é, contudo, coerente com as omissões e cumplicidades do lulopetismo com a via autoritária do bolivarianismo, instaurado por Hugo Chávez.
O mundo inteiro está preocupado com o que pode acontecer com a Venezuela. Não se sabe, sequer, se o resultado eleitoral será respeitado na hipótese de uma vitória da oposição. Ou se será fraudado. Não há observadores internacionais independentes, pois foi vetada a presença de delegações da OEA e da União Europeia.
O que há é um simulacro, uma equipe da Unasul, braço do chavismo, cujo presidente, Ernesto Semper, ameaçou expulsar o Brasil da entidade, caso o Congresso Nacional aprove o impeachment de Dilma.
Se alguma expectativa existia quanto à possibilidade de o Itamaraty, um centro de excelência de reputação mundial, retomar as rédeas da política externa na América do Sul, Dilma acabou de dirimi-la. Em nossa região, o mandachuva continua sendo o longevo Marco Aurélio Garcia. Desde que Lula chegou ao poder, ele está lá no Palácio do Planalto, como vice-rei para assuntos latino-americanos e caribenhos.
Marco Aurélio é o grande responsável pela construção de uma política de alinhamento automático e de subserviência ao projeto bolivariano de Hugo Chávez.
O tal socialismo do século 21 de Chávez sempre fascinou a segmentos do Partido dos Trabalhadores e do governo, desde os tempos de Lula. A relação umbilical com o chavismo servia de compensação para as correntes mais radicais do lulopetismo, que torciam o nariz para a política econômica ortodoxa adotada pelo então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e seu presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Apoiar Chávez era uma forma de exercitar o “internacionalismo proletário”. Ele era o novo guia. E a Venezuela o novo farol.
Ou não foi Lula quem afirmou que a Venezuela tinha “democracia em excesso” e que Chávez poderia ser criticado “por qualquer coisa, menos por falta de democracia”?
A política externa construída desde os tempos do Barão de Rio Branco foi mandada às favas. O Brasil deixou de ser uma liderança regional, de exercer um papel propositivo e pacificador na região. E embarcou em devaneios como o do “Gran Gasoduto del Sul”, que ligaria a Venezuela, o Brasil e a Argentina.
Para não falar no “acordo de camaradas”, por meio do qual o governo petista perdoou o calote venezuelano na Refinaria Abreu e Lima, um dos muitos péssimos negócios imposto por Lula à Petrobras.
Até alguns dias atrás, o governo brasileiro fingia não ver que a Venezuela está, há muito, em marcha batida para uma ditadura. Limitava-se, em poucas e esparsas ocasiões, a reclamações ao pé do ouvido de Nicolás Maduro.
Custa crer, mas é verdade. Reclamou até da postura do TSE brasileiro, que se recusou a indicar outro nome no lugar de Nelson Jobim para acompanhar a eleição naquele país, depois que o ex-ministro do Supremo foi vetado pela Comissão Nacional Eleitoral - vale dizer, por Maduro.
A nota do Itamaraty parecia uma inflexão nesta política de avestruz.
Em Paris, Dilma fez mais uma meia-volta. Preferiu manter-se de costas para a democracia a somar sua voz ao apelo de líderes e ex-chefes de Estado como David Cameron, Felipe Gonzalez, Ricardo Lagos, Fernando Henrique Cardoso, Manuel Valls - premiê da França -, entre outros, signatários do manifesto “Venezuela grita liberdade”.
Perdeu a chance de pelo menos aparecer ao lado de estadistas.
Hubert Alquéres- é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paul

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