Não há discordâncias de projeto, mas briga pelo comando de uma máquina institucional esquecida de seu propósito democrático
Na mesma semana, no início do mês, em que Eduardo Cunha, a fim de legitimar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, afirmou não ter motivações políticas, Geraldo Alckmin, a fim de tirar a legitimidade das ocupações de escolas públicas por estudantes, afirmou que elas eram ações políticas. Quando o deputado de um país pretende honrar sua decisão pela ausência de política, e um governador quer desqualificar movimentos da sociedade pela presença de política, sabemos que a situação não está apenas ruim, mas também de ponta-cabeça.
Na mesma semana, no início do mês, em que Eduardo Cunha, a fim de legitimar o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, afirmou não ter motivações políticas, Geraldo Alckmin, a fim de tirar a legitimidade das ocupações de escolas públicas por estudantes, afirmou que elas eram ações políticas. Quando o deputado de um país pretende honrar sua decisão pela ausência de política, e um governador quer desqualificar movimentos da sociedade pela presença de política, sabemos que a situação não está apenas ruim, mas também de ponta-cabeça.
O fato, porém, é revelador. Dizer que alguma coisa é política tornou-se um insulto. Isso se explica pela corrupção do sentido da política, fruto não apenas do roubo e do desvio do dinheiro público para indivíduos e partidos: que são ilegais, dão cadeia e a desmoralizam. É fruto também da corrupção do sentido da política vinda da inevitável internalização, nela, de interesses financeiros quando os seus protagonistas, por exemplo, têm campanhas legalmente bancadas por empresas — que, é óbvio, esperam retorno de seus investimentos. É ainda na legalidade que política vira barganha, e negociação vira negociata de cargos, ou de impeachment.
O sentido da política se corrompe. Não se tenta nem mais dar à disputa de poder o semblante de preocupação com o bem comum. Não há discordâncias de projeto, mas briga pelo comando de uma máquina institucional esquecida de seu propósito democrático. E a vida pública parece poder ser regida só por duas vias: a privada, que a submete ao indivíduo, ao partido e às empresas; ou a técnica, sob o jugo de cálculos econômicos “neutros”. Some o debate plural de ideias.
No caso do impeachment, o pior é que, como até quem o deseja assume, as razões de aceitação do processo nesse instante foram justamente as que se quer negar. Foi a “política”, no sentido pejorativo pelo qual Cunha a trata, que decidiu a parada. O impeachment foi acolhido no momento em que deputados do partido da presidente, o PT, votaram a favor da investigação de Cunha pelo Conselho de Ética. É difícil comprar coincidência onde grita a causalidade. O trâmite pelo qual passa o processo de impeachment fica maculado, seja qual for seu desfecho.
É fácil, portanto, dizer que ele não é legítimo. O problema é que, caso esse processo tivesse sido rejeitado por Cunha, seria pelas mesmas razões, isto é, por barganha e “toma lá dá cá”, com uma única diferença: o governo sairia vitorioso. Ou seja, se há ilegitimidade no processo de impeachment, lute-se contra ele. Mas, se essa jogada foi ilegítima, não o foi isoladamente. O jogo todo havia pervertido a política republicana. O governo estava jogando pelas mesmas regras graças às quais um oportunismo manipulador sem igual chegou a dar as cartas.
Sorte que, enquanto os profissionais da política a tratam assim, os jovens, no exercício direto de sua cidadania, não. Ocuparam escolas que seriam fechadas pelo governo de São Paulo. Resistiram não só com bravura, mas com inteligência, à “guerra” contra as suas ações. Eles apareceram no espaço público, enfrentando estrategicamente a ausência de uma arena racional de diálogo. Não importa se é muito ou pouco. É política. Temos que olhar para onde ela aparece. Como dizia o filósofo Gilles Deleuze, não há governos de esquerda, mas só governos sensíveis a exigências de esquerda. Aí estão as exigências. E os governos, cadê?
Pedro Duarte é professor de Filosofia da PUC-Rio
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