Foi nesse quadro que o Banco Central decidiu manter inalterada a sua taxa de juros em 14,25% anuais, contrariando indicações anteriores de aperto monetário.
Adotaram-se como pretextos para a decisão a sensível redução da projeção do Fundo Monetário Internacional para o desempenho da economia brasileira e, segundo o comunicado da medida, a "elevação das incertezas domésticas e, sobretudo, externas".
Não parecem claras, entretanto, as perspectivas de que um cenário tão adverso vá se materializar. Nas próprias estimativas do FMI, calcula-se uma expansão de 3,4% do Produto Interno Mundial neste ano, acima dos 3,1% de 2015. Para 2017, são esperados 3,6%.
Perigos há, como sempre. A combinação de redução do crescimento da China com aperto monetário, ainda que gradual, nos EUA ameaça especialmente os países emergentes, que atraíram recursos externos e elevaram seu endividamento nos últimos anos.
Agora, com o fim do espetacular ciclo altista de matérias-primas iniciado na década passada e a melhora das perspectivas americanas, o fluxo se reverte.
O Instituto de Finanças Internacionais, organização que reúne grandes bancos, prevê forte saída de capitais dos países emergentes. Em 2015 se foram US$ 735 bilhões, e a perspectiva é de fuga de mais US$ 448 bilhões neste ano.
A maior parte desses montantes tem como remetente a China, o que contribui para reduzir as reservas em moeda forte do país asiático e alimenta especulações sobre uma desvalorização abrupta do yuan.
Daí a falar em recessão global, porém, há uma distância considerável. Nos EUA e na Europa persistem a retomada gradual do crescimento e da geração de empregos, sem evidência de recaída.
O barateamento do petróleo, ademais, oferece um bônus aos consumidores (grande parte dos países ricos e da Ásia), algo que normalmente suscitaria aceleração da economia global.
O cenário mais pessimista, ao que parece, seria desencadeado por uma piora nas condições de crédito dos emergentes capaz de resultar em quebras de empresas ou insolvência de países, algo que certamente contagiaria as finanças do mundo rico. Nada do gênero aconteceu, ainda.
Por enquanto, ao menos, é o PIB do Brasil que puxa o do mundo para baixo, não o contrário.
editorial da Folha de São Paulo
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