domingo, 28 de fevereiro de 2016

"Criaturas de Santana",

Era forte, muito forte o sentimento de que estavam protegidos pela capa da impunidade. Só isso explica João Santana e sua mulher, Mônica Moura. Eles trabalharam em campanhas presidenciais, usaram técnicas agressivas de publicidade e mantiveram contas secretas no exterior, onde receberam recursos de empresas e lobistas. Isso, depois de Duda Mendonça ter admitido que assim é que o PT lhe pagava.
Este não é o primeiro grande caso de corrupção investigado no Brasil. O Mensalão colocou o ex-chefe de Santana diante de uma CPI e da Justiça. Duda escapou do pior, mas ajudou a revelar o esquema. Disse que foi forçado pelo PT a abrir uma offshore para receber parte do dinheiro. Admitiu o caixa dois e pagou a multa.
De lá para cá, o país está claramente dobrando sua aposta no combate à corrupção através do Ministério Público, da Justiça e Polícia Federal. A Lava-Jato tem métodos e ação mais precisos, mais elaborados. Santana e Mônica acham que poderão se livrar com a estratégia de admitir alguma coisa para perder os anéis e ficar com os dedos. Eles reconhecem a existência de contas no exterior não declaradas, mas Santana diz que não sabe quem depositou nessa conta e seu advogado corrobora: “ele é um criador.”
Na Pólis de Santana e Mônica, as criaturas não tinham limites. Elas podiam subestimar a inteligência alheia, manipular os sentimentos, mentir sobre adversários e escamotear a crise que agora nos consome. As criações de João Santana fizeram mal ao país e à democracia brasileira, mas isso não levaria o casal à prisão. Revela, contudo, a arrogância e a sensação de impunidade que tinham. Ele fez tudo isso, enquanto dinheiro duvidoso era depositado por lobista e por empreiteira em uma de suas contas.
A planilha da Odebrecht divulgada pela Época indica que pode ter havido ligação mais direta. Santana orientava Dilma Rousseff a mentir em debates e entrevistas, vivia na intimidade do poder como conselheiro político mesmo após as eleições, enquanto tinha seis contas não declaradas no exterior. Em novembro passado, diante dos avanços da Lava-Jato, fez uma declaração retificadora na Receita admitindo cinco contas, mas não a que recebeu o dinheiro de Zwi Skornicki e da Odebrecht.
O que contaram Santana e Mônica nos depoimentos é risível. Receberam no exterior porque trabalharam no exterior, não trouxeram o dinheiro, mas pretendiam fazê-lo, receberam caixa dois, mas nunca no Brasil, e sim em suas campanhas presidenciais em outros países. Mônica cuidava de toda a parte administrativa e financeira, a tal ponto que o distraído criador nem sabe dizer quanto e quem lhe pagou. A estratégia clara é admitir crimes menores para se livrar da cadeia e também proteger a presidente Dilma Rousseff e seu mandato.
No exterior, eles trabalharam para presidentes como Hugo Chávez e José Eduardo dos Santos e por essas campanhas admitem caixa dois. O que liga os dois políticos é a prática antidemocrática. José Eduardo do Santos é presidente desde 1979, seu governo é uma ditadura corrupta que faz eleições para encobrir seu caráter autoritário. Sua filha Isabel dos Santos é considerada a mulher mais rica da África, com fortuna avaliada em US$ 3,7 bilhões pela revista “Forbes”.
Sua riqueza tem relação direta com o ambiente de corrupção instalado pelo governo para o qual João Santana trabalhou. Hugo Chávez tinha, como todos vimos, a decisão de se eternizar no poder, golpeando as instituições. Ele morreu, mas deixou seu ectoplasma que governa o país rumo à ruína.
Pela versão das primeiras horas após a prisão, eles aceitaram dinheiro de origem duvidosa, mas só no exterior. No Brasil, tudo foi feito dentro da lei. Uma delinquência com limites geográficos. No início da campanha, ele concedeu uma entrevista ao jornalista Luiz Maklouf na “Época”, em que disse que a presidente Dilma ganharia fácil no primeiro turno, enquanto haveria com os outros candidatos uma “antropofagia de anões”, e explicou: “eles vão se comer lá embaixo e ela, sobranceira, vai planar no Olimpo”.
A história não foi assim, houve segundo turno, mas o que o país quer saber agora é o que aconteceu no Olimpo. Ele diz de si mesmo que tem ideias muito rápidas. Agora é a hora de mostrar isso, mas que a ideia seja crível, porque os velhos truques não funcionam mais. O país está mudando.
por Miriam Leitão- O Globo

Agamenon: Acarajé de Caroço

O Brasil é o país dos escândalos. É por isso que a Globo está perdendo audiência. Não tem novela, não tem minissérie, não tem programa de auditório que chegue aos pés do que rola no real. Real que, aliás, está cada vez mais desvalorizado.
Eu, que estou mais negativado que o Brasil, continuo no miserê. A situação é de desespero contido e pânico moderado. Estou até pensando em amputar uma parte de minha anatomia, que já não tem muita serventia, para ver se consigo me hospedar uns dias na Vila Paralímpica. Mas a Isaura, a minha patroa, descobriu que não tem modalidade paralímpica para bilauplégico.
As Olimpíadas nem começaram e o Brasil já foi desclassificado por três agências de risco. Segundo a Moody’s, o Brasil não vai ter nem como pagar o mico pelo atraso das obras. E muito menos a conta de gás da Pira Sagrada. Pra tapar o gigantesco rombo nas contas públicas, o governo já colocou as medalhas de ouro no “prego” da Caixa Econômica Federal.
Mas vamos aos escândalos mais cabeludos. O personal marqueteiro da presidente Zica Rousseff, João Sacanna, mudou de sobrenome para João Emcanna e, em seguida, foi trancado, junto com a sua patroa, no xadrez da Polícia Federal em Curitiba. Pelos menos o casal não vai precisar entrar com um pedido de visita íntima. A cadeia da PF de Curitiba está virando uma espécie de Big Brother Brasil. Só tem uma diferença: ninguém sai da Casa de Detenção, só entra. O japonês da Federal virou uma espécie de Pedro Bial, com a vantagem de não declamar aqueles textos “poéticos”.
E a bandalheira e a pouca vergonha não param por aí! Vaidoso por ter sido contratado como “coroa-propaganda” do Viagra, o ex-presidente Fecundando Henrique Gostoso assumiu que teve um filho fora do casamento com uma jornalista de programa. Programa da Globosat. O problema é que o exame de DNA que ela mostrou no Programa do Ratinho revelou que o verdadeiro pai da criança é o falecido biólogo francês Jacques Costeau. Costeau veio ao Brasil fazer uma pesquisa sobre as piranhas.
Ao saber do filho do líder do PSDB (Partido Social Democrata Bastardo), Luísque Inácio Lula da Silva virou para Dona Marisa e disse:
-Galega, se o FHC pode, eu também posso ter filho fora do casamento!
-E se descobrirem?, perguntou a “Madame”.
-Eu digo que não é meu. Igual ao tríplex e ao sítio de Atibaia!
Agamenon Mendes Pedreira não vale nada, mas ainda vale mais que o Brasil.

BJ, o elo da Odebrecht com os políticos


UM DOS EXECUTIVOS MAIS IMPORTANTES DA COMPANHIA, BENEDICTO BARBOSA
JÚNIOR FOI O RESPONSÁVEL PELAS OBRAS DA COPA DO MUNDO E DAS
OLIMPÍADAS DE 2016

Benedicto Barbosa da Silva Junior, de 55 anos, passou trinta deles na Odebrecht. Entrou como trainee, recém-saído da Escola de Engenharia Civil de Lins, no interior de São Paulo, e tornou-se presidente da Construtora Norberto Odebrecht (CNO) - terceiro nome na hierarquia do grupo, considerado o patrimônio da divisão que comanda. Nesse período, construiu não apenas uma carreira de sucesso, mas também uma relação de proximidade com o herdeiro da gigante, Marcelo Odebrecht. Alvo da Acarajé, 23ª fase da Operação Lava Jato, Barbosa juntou-se ao chefe novamente nesta semana, ao ser preso pela Polícia Federal. Ele foi solto na tarde desta sexta-feira após expirar o prazo de cinco dias da prisão temporária.
Foi justamente a proximidade com Odebrecht que contribuiu para levar BJ, como o executivo é mais conhecido, para trás das grades. Segundo os investigadores, há indícios de que Barbosa era quem fazia a ponte entre a empresa e os políticos, o homem a ser "acionado" quando houvesse necessidade de intermediação de autoridades públicas. "É possível verificar que Benedicto é pessoa acionada por Marcelo para tratar de assuntos referentes ao meio político, inclusive a obtenção de apoio financeiro", diz inquérito da PF assinado pelo delegado Filipe Hille Pace.
Segundo o advogado Nélio Machado, em depoimento na quarta-feira, BJ explicou à PF como a Odebrecht repassou recursos - segundo ele, legais - aos políticos. "Ele explicou como é que se faz. Durante décadas as empresas fizeram doações eleitorais, é um critério plural", disse o defensor. Em decisão desta sexta, o juiz federal Sergio Moro decidiu liberá-lo, com a ressalva de que ele não pode sair do país nem mudar de endereço. "Apesar apesar de seu posto executivo elevado no Grupo Odebrecht, consta que, aparentemente, os principais executivos da empresa envolvidos com as operações financeiras secretas já se encontram presos cautelarmente", escreveu Moro.
O principal fundamento do pedido de prisão apresentado pelo Ministério Público Federal é o de que, assim como Marcelo, BJ teria pleno conhecimento do esquema criminoso instaurado na Petrobras. "No curso das investigações relacionadas ao Grupo Odebrecht, foi possível identificar outros executivos que se encontravam proximamente vinculados ao presidente Marcelo Bahia Odebrecht, e sob os quais pairam indícios de que tenham ativamente participado da organização criminosa formada no âmbito daquele conglomerado empresarial para a prática de ilícitos penais. Um deles é Benedicto Barbosa da Silva Junior", diz o texto.
BJ teve uma carreira meteórica na Odebrecht. Em apenas quatro anos, foi de trainee a gerente de contrato. Especializou-se em obras de alta complexidade, como hidrelétricas e metrô - chamavam-no quando era preciso resolver questões "irresolvíveis". Era conhecido pelos outros funcionários como alguém de "linha de frente", que preferia visitar os canteiros de obras a ficar trancado no escritório no Rio de Janeiro. No seu vasto portfólio, destacam-se a construção do metrô de Copacabana, no Rio, e a Usina de Três Gargantas, na China, uma das maiores do mundo.
Além disso, foi diretor superintendente da empresa no Sudeste Asiático, trabalhando de Kuala Lumpur, capital da Malásia. Em 2008, tornou-se presidente da CNO, ficando encarregado das - controversas - obras da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Torcedor fanático do Corinthians, cuidou pessoalmente da construção da arena do seu time de coração, em São Paulo. Junto com um consórcio formado com a Andrade Gutierrez, também foi responsável pela reforma do Maracanã.
Em um texto publicado pela agência Odebrecht, Júnior é apresentado como mais um do "bando de loucos" - referência a um canto da torcida organizada do Corinthians. Ele, inclusive, aparece em fotos com o ex-presidente do clube Andres Sanchez e o ex-presidente Lula, também corintiano, na época de fechamento do contrato entre a empresa e o clube. Outra matéria conta que o seu escritório é decorado com uma camisa do time preto e branco e miniaturas de trator. Em outro texto, intitulado "Relatos Inspiradores", ele chega a falar sobre a sua relação com o herdeiro da companhia. "Agora tenho contato com o Marcelo Odebrecht, que complementa minha visão empresarial com seu arrojo", diz na publicação.
Pelos diálogos interceptados pela PF, o contato de BJ com Marcelo parece ir além de uma mera relação empresarial. Apesar de separados por cerca de 400 quilômetros - Marcelo ficava em São Paulo, e ele, no Rio -, os dois parecem manter um contato constante, principalmente sobre assuntos políticos. Trocam entre si elogios e "xingamentos", repassam vídeos humorísticos do Youtube, comentam "erros" da presidente Dilma Rousseff no debate eleitoral, falam de parlamentares e até especulam sobre os rumos da Lava Jato - obviamente, antes de Marcelo ser preso na Erga Omnes. "Vi agora. Pela hora que você chegou às 10h30 podia ter subido! Não atrapalha nunca, pelo contrário facilita e ajuda!", diz uma mensagem de Marcelo a BJ após ele, aparentemente, ter esperado para ser recebido pelo então presidente da holding.
Como os parlamentares têm foro privilegiado, a PF precisou esconder com tarja preta os nomes dos parlamentares que surgem aos montes nas mensagens - eles foram ocultados em ao menos dez vezes. O único que aparece sem a rasura é a sigla SCF referente ao ex-governador do Rio Sérgio Cabral Filho, segundo a PF. "Vc acabou não falando depois. Está preocupado com SCF e outros no tema MF?", pergunta Marcelo, sobre o envolvimento de outro executivo afastado da companhia Márcio Faria com o ex-governador. Benedito, então, responde: "Ok. Preciso resolver 100 mil (nome de algum político com foro). Vou aproveitar este momento PT/PSDB". Marcelo diz: "Não entendi. Depois você me fala seguro". Com a última mensagem, a PF constatou que a dupla mantinha um canal de comunicação restrito para tratar de temas "escusos".
Na época das eleições presidenciais de 2014, Marcelo envia a BJ um vídeo do Youtube que satiriza a presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves. "Muito divertido", comenta. Na sequência, a dupla cita a página Dilma Bolada seguida pela frase "DR pagou 1 mi", escrita por BJ. "Exato", responde o chefe. A PF levantou a suspeita de que os dois falam sobre o pagamento a "pseudohumoristas", conforme escreveu o delegado, "visando a promoção de ataques a outros candidatos". O juiz federal Sergio Moro também destacou, em despacho, que a PF identificou duas reuniões entre BJ e o ex-ministro José Dirceu em outubro de 2010 e abril de 2011.
Com uma carreira invejável, BJ ganhou, em janeiro de 2014, o prêmio "O Equilibrista" do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF). Segundo nota do instituto, a homenagem é uma espécie de "Oscar do setor". Nos registros da Câmara Municipal de Lins, também consta que Júnior ganhou o título de "Cidadão Benemérito" da cidade por seus "relevantes serviços prestados ao município".
A alcunha BJ também aparece com recorrência em uma planilha associada a valores, que foi apreendida em um e-mail secreto do ex-executivo da Odebrecht Fernando Migliaccio, preso na Suíça enquanto tentava retirar dinheiro de contas bancárias. Segundo as investigações, a tabela trata de repasse de dinheiro a partidos políticos, especialmente ao PT. A defesa de BJ disse que ele não "tem condições" de falar sobre a planilha, pois a desconhece totalmente.
"Marcelo Bahia Odebrecht é o verdadeiro gestor de tais 'créditos'. Benedicto Barbosa Júnior, por sua vez, desempenha posição igualmente relevante na administração da conta, basta lembrar que na planilha a sigla 'BJ' é a que apresenta as maiores cifras, sendo permitida a conclusão de que a maior parte de recursos espúrios eram originados da área dentro da Odebrecht controlada por Benedicto", diz o inquérito.
Esta não é a primeira vez que Benedicto Barbosa Júnior é citado na Operação Lava Jato. Em uma troca de mensagens entre o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o ex-presidente da OAS Leo Pinheiro, seu nome é mencionado pelo peemedebista como alguém capaz de ajudar a resolver problemas. "Tive com Júnior e pedi para ele doar por vc ao Henrique (Eduardo Alves). Ele, então, recebe um "OK" de Leo Pinheiro. "Tocando com Júnior aqui, na pressão. Ele vai resolver e se entende com vc", responde Cunha. BJ também está na lista de presenteados de Pinheiro. O executivo da OAS tinha o hábito de presentear parlamentares, ministros e empreiteiros em datas comemorativas. Para Júnior, ele deu uma biografia do jogador argentino Lionel Messi.
Em nota, a Odebrecht classificou a prisão de BJ como "medida extrema e injusta" e ressaltou que ele sempre esteve à disposição para prestar esclarecimentos à Lava Jato. No seu lugar, entrou em caráter interino o engenheiro Carlos Hermanny Filho.
Confira a nota da Odebrecht na íntegra:
A Construtora Norberto Odebrecht esclarece que Benedicto Barbosa da Silva Junior sempre esteve à disposição para colaborar com as investigações em curso, sendo sua detenção uma medida extrema e injusta. Em seu lugar, para desempenhar interinamente as funções de líder empresarial, foi designado o engenheiro Carlos Hermanny Filho. Ambos ingressaram na empresa ainda como estagiários, na década de 80, tendo participado de importantes obras no país e no exterior. A CNO dispõe de sólido sistema interno de compliance, alinhada com os mais rigorosos padrões internacionais. A empresa reafirma sua confiança na Justiça, com a firme disposição de atuar para o esclarecimento de qualquer fato ou dúvida.
(Com contribuição de João Pedroso)

Mensagens Marcelo Odebrecht e Benedicto Júnior

Executivos da Odebrecht estudam aderir à delação premiada,

Diretores e ex-executivos da Odebrecht estudam aderir a acordos de delação premiada para evitar condenações duras da Justiça.
Marcelo Odebrecht, um dos sócios da empresa, preso há cerca de seis meses, porém, não está entre os que pensam em fechar acordo para colaborar com a Justiça. O grupo é integrado apenas por executivos.
A prisão do marqueteiro João Santana e de outros dois diretores da empresa, Fernando Migliaccio, detido na Suíça, e Benedicto Barbosa da Silva Júnior, presidente da construtora que acabou sendo solto horas depois, teria sido a gota d`água que debilitou ainda mais os acusados, até há pouco tempo dispostos a resistir à pressão para aderir à delação.
O funcionário da Odebrecht Fernando Migliaccio, preso na Suíça
A quantidade de informações que veio à tona, com dados detalhados enviados pela Suíça e pelos EUA, e o atual estágio da investigação, estariam levando os executivos a estudarem a alternativa de colaborar com a Justiça.
A informação foi confirmada por duas fontes ligadas à empreiteira. Uma delas disse que "não confere" a informação de que um acordo de delação já foi fechado, mas admitiu que executivos "estudam"e "podem" aderir ao instrumento.
Uma segunda fonte afirmou que "a casa pode estar caindo".
segundo Mônica Bergamo-Folha de São Paulo

INFLAÇÃO, INDEXAÇÃO E FEIJÃO COM ARROZ


Toda vez que ouço que a inflação é causada pela indexação eu sinto um frio na barriga. Sobretudo quando há um desastre fiscal em andamento, as autoridades não acham grave e muita gente pensa em elevar o gasto público.
Mas foi isso o que disse o ex-ministro Bresser-Pereira, outro dia, no Roda Viva, diante do semblante cordato, e invariavelmente debochado, do professor Belluzzo.
Bresser dizia também que vinha conversando com um parlamentar que tencionava propor uma lei vedando a indexação em relações econômicas onde o poder público fosse parte. Pelo que entendi, isso seria uma nova e poderosa ideia para prevenir ou combater a inflação.
Lembrei que os dois professores tinham sido figuras proeminentes em dois congelamentos de preços fracassados no Brasil, em 1986 e 1987, 30 anos passados. Nada a estranhar.
A ideia de que a indexação causa a inflação é um exemplo admirável de uma frase célebre do jornalista americano Henry Mencken, uma das favoritas do ex-ministro Pedro Malan, segunda a qual “para cada problema complexo, há sempre uma solução que é simples, elegante e errada”.
Afinal se a ideia fizesse algum sentido esses dois congelamentos teriam funcionado, assim como os outros três, em 1988, 1990 e 1991.
Na mente desse povo alternativo há algo que Mario Henrique Simonsen definiu certa vez como “um princípio de contra-indução”, pelo qual uma experiência que dá errado, em vez de atestar a morte de uma hipótese, resulta em nova tentativa, até que a coisa funcione.
Pois bem, é importante ter claras as razões pelas quais é um erro dizer que a indexação causa a inflação, pois esta é uma crença e muito perigosa nesse momento em particular.
Primeiro, vamos a uma definição mais precisa de indexação: trata-se de comportamento pelo qual uma pessoa, física ou jurídica, fixa seus preços e salários desejados, ou simplesmente manuseia grandezas monetárias, tendo em mente o poder de compra da moeda. Não há muito mistério aqui. As pessoas, como regra, não confundem valores nominais com valores reais, ou seja, não estão sujeitas a uma doença que os economistas designam como “ilusão monetária”.
Nos cursos de introdução a economia, quando os professores explicam esse conceito, os alunos sempre reagem como se já soubessem disso desde sempre. Podem mesmo ter aprendido antes do ensino médio, quando ganharam a primeira mesada. É este o momento onde terão de descobrir por conta própria quantos picolés se compra com aquele dinheirinho. Ninguém esquece dessa descoberta, sobretudo se, no segundo mês, o mesmo dinheiro não for suficiente para o picolé.
Portanto, a indexação é o comportamento pelo qual as pessoas demonstram que não possuem “ilusão monetária”, e pelo qual elas sempre relacionarão as grandezas nominais a algum índice que tenha a ver com o custo de vida, picolés ou dólares, pois o dinheiro é apenas um pedaço de papel, seu valor é sempre relativo a alguma coisa.
Como imaginar que um comportamento tão inocente e natural possa ser a causa da inflação? Não seria um despautério uma lei que nos obrigasse à ilusão monetária?
É claro que a indexação não causa a perda do poder de compra da moeda, esteja a indexação escrita num contrato ou apenas intuitivamente na mente das pessoas.
Proibir a indexação é como congelar preços, é como proibir o cálculo da inflação ou tentar impedir qualquer efeito que o conhecimento do índice de inflação possa ter nas ações das pessoas. Desindexação, por sua vez, é quando ninguém quer praticá-la, é o que se passa nos Estados Unidos, onde as pessoas acham mais simples não pensar em cláusulas de correção monetária, ou em contas de poder compra.
Desindexação é a ausência de restrições à indexação, coisa que ocorre em países onde as pessoas confiam que o governo não vai lhes enganar.
A ideia de criar embaraços à indexação é, na verdade, uma forma insidiosa de fazer um congelamento pela metade, ou de forma seletiva. Mas, a despeito da nossa longa experiência com esse tipo de expediente, Dilma Rousseff foi capaz de nos impor um choque heterodoxo em câmera lenta ao fazer um semicongelamento (ou “desindexação parcial”) dos preços públicos a partir de 2010 e com mais vigor em 2012.
Com esse truque velho, amansou artificialmente a inflação e obteve a sua reeleição, após a qual soltou os preços. É impressionante que a velha fórmula populista, de que se valeu o governo em 1986, 30 anos atrás, ainda pudesse funcionar.
Talvez tenha sido a passagem do tempo, que fez as pessoas esquecerem como é ser enganado pelo governo dessa forma tosca e primária. No escurinho de seu gabinete, a presidente deve rir um bocado, juntamente com seus conselheiros econômicos, daqueles que diziam que as pessoas logo perceberiam a existência de “inconsistência temporal” em suas políticas.
Mas o erro está em pensar que a malandragem, esta e todas as outras, vão ficar impunes. O preço de iludir as pessoas é um dano irreparável na credibilidade, o que parece uma descrição bem amena para o fato de que nenhuma autoridade de primeiro escalão, em nossos dias, tem coragem de sair para jantar fora num restaurante comum.
Mas o fato é que a inflação está descontrolada.
A marca de 10% é muito perigosa, pois leva naturalmente a um encolhimento da “periodicidade” com que se recontrata preços, aumenta desproporcionalmente a variância das expectativas e torna as coisas muito mais instáveis. Mesmo diante da maior recessão da história do Brasil, a inflação não cede como deveria.
Fora do mundo da fantasia dos heterodoxos e alternativos, os economistas sabem que a inflação tem a ver com expectativas. As pessoas possuem uma compreensão muito sofisticada das coisas da economia, sabem fazer conta e não confiam em Dilma Rousseff.
Ao estabelecer quantias em dinheiro, para seus preços, salários, planos e desejos, as pessoas olham para trás e para os lados, mas principalmente para o futuro. E está me parecendo que o futuro voltou para o mesmo lugar em que estava no fim de 1987, depois do colapso do Plano Bresser e a ascensão da política econômica que passou a ser conhecida como o “feijão com arroz”. O novo ministro da Fazendo Mailson da Nóbrega definiu três prioridades, duas das quais eram “controlar a inflação em níveis razoáveis para a situação, de 15% ao mês (sic), e convencer a sociedade de que não haveria congelamento”.
Está me parecendo que voltamos exatamente a esse ponto, porém com um novo feijão com arroz, onde os 15% podem valer para a inflação anual e para o desemprego, a depender dos acontecimentos. Na essência, é como se a presidente tivesse outras preocupações, e não quisesse se aborrecer mais com os temas da economia. Ou como se tivesse desistido da economia.
De fato, se a presidente tem 10 chamadas telefônicas para devolver, 9 das quais associadas aos eventos de Curitiba e uma do ministro da Fazenda, quais ela vai atender primeiro?
*GUSTAVO H. B. FRANCO EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL E SÓCIO DA RIO BRAVO INVESTIMENTOS. ESCREVE NO ÚLTIMO DOMINGO DO MÊS
Inflação, indexação e ‘feijão com arroz’ Tags: Brasil, Pedro Malan, Mario Henrique Simonsen, Estados Unidos, Dilma Rousseff, Mailson da Nóbrega,…
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CAIXA DE PENHORES

Com sua política econômica rejeitada pelo PT, pelo padrinho Lula e por quem tem poder de investir e fazer rodar a economia, a presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, conseguiram fechar o círculo de oposição ao esforço desesperado para sair do atoleiro e dar aparência de que existe comando e um governo que vai pôr o Brasil na rota do crescimento. PT e Lula, agora, propõem um plano de governo em oposição ao que ela acaba de lançar esperando seduzir empresários, investidores e o mercado financeiro.
Foi um fiasco. A descrença no governo, que já era grande, piorou. A Moody’s, única agência de risco que ainda mantinha o grau de investimento do Brasil, no dia seguinte rebaixou a nota do País em dois pontos e sinalizou viés de baixa. Dilma e Barbosa estão perdidos e os brasileiros, mergulhados no desemprego e na expansão da pobreza. A cena de uma família pobre e triste encarando o prato vazio na mesa, explorada por Dilma na eleição para condenar proposta da candidata Marina Silva, saiu do imaginário para a vida real de milhares de brasileiros. Hoje Dilma protagoniza a acusação feita à Marina e seu marqueteiro, que criou a cena da campanha, está preso.
Entre a promessa de reforma da Previdência e a apropriação indevida de dinheiro dos precatórios, há no ajuste fiscal do governo uma proposta em gestação com poder explosivo de criar problemas de difícil solução para sucessores de Dilma. Trata-se da federalização de empresas estatais estaduais que governadores repassariam para o governo federal privatizá-las, e o dinheiro da venda seria aplicado para abater o valor das prestações mensais da dívida dos Estados com a União.
Vendida como alívio ao sufoco financeiro que governadores vivem hoje, o Ministério da Fazenda ainda não detalhou a proposta, mas a comparou com a experiência vivida no governo FHC, que condicionou o alongamento da dívida dos Estados com a União à privatização dos bancos estaduais. Na época, o objetivo dos economistas de FHC era acabar com o farto uso do dinheiro desses bancos (todos carregavam rombos gigantes) para financiar campanhas eleitorais e enriquecer governadores e amigos. Para isso foi criada uma diretoria específica no Banco Central (BC), que acabou por privatizar todos os bancos e pôs fim a uma fonte poderosa de fraudes e corrupção. Regras semelhantes serviram para privatizar as distribuidoras estaduais de energia elétrica, igualmente usadas por governadores para financiar campanhas políticas. Agente da privatização, o BNDES vendeu 20 empresas estaduais de energia e arrecadou US$ 18,330 bilhões para os Estados.
Na época, a ideia deu certo porque: 1) havia vontade política do governo, pois a ideia era parte importante de uma bem arquitetada e abrangente reforma do Estado; 2) os escândalos de fraudes e roubalheiras nessas empresas penalizavam a população, que, cansada de pagar o prejuízo, deu apoio popular à privatização, tanto que a oposição feita pelo PT e sindicatos foi pobre em adesões; e 3) o governo escolheu quadros técnicos e experientes do BC e do BNDES para preparar licitações, avaliar ativos, enfim, levar as empresas a leilão com chances reais de sucesso.
Nada disso há hoje no governo Dilma. A falta de confiança tem afastado potenciais investidores e o programa de privatização se arrasta, porque não há competência técnica para conduzi-lo, além de enfrentar tiroteios vindos do próprio PT. Mas há ainda outro fator na proposta tão perigoso quanto arriscado: o governo federal virar uma caixa de penhores não de joias preciosas e valiosas penduradas no prego por governadores, mas de bijuterias vagabundas e bugigangas invendáveis.
“Cada Estado vai apresentar a empresa que acreditar ser mais interessante se desfazer em troca de uma redução no fluxo de pagamento de dívidas”, explicou o secretário do Tesouro Nacional, Otavio Ladeira. Sem nenhuma dúvida, governadores vão empurrar para Brasília suas piores empresas. Como as distribuidoras elétricas de seis Estados que há anos a Eletrobrás tenta e não consegue vender.
* É jornalista e professora da PUC-Rio. E-mail: sucaldas@terra.com.br
Caixa de penhores Tags: PT, Dilma Rousseff, Nelson Barbosa, Brasil, Marina Silva, Marina, Ministério da Fazenda, Banco Central, BNDES, Brasília, EletrobrásSuely Caldas* 28 Fevereiro 2016 | 06h 36 Com sua política…
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O corpo do maratonista

Somente treinos não são suficientes para ganhar força, fôlego e resistência para completar os 42km da prova. Temos que alterar o funcionamento do nosso corpo todo durante a maratona. E isto requer tempo

Qual seria o corpo ideal da pessoa que corre uma maratona? Magra e alta com pernas longas, tronco estreito e quadril largo, baixa e gordinha com pernas grossas, tronco largo e quadril estreito?
Sinceramente, o que mais importa é o que está por baixo de tudo isso. E isso é o assunto deste artigo.
Para correr os 42.195 metros é preciso de muito treino. Mas não são treinos apenas para ganhar força, perder peso, ganhar fôlego e resistência. São treinos para mudar o funcionamento do seu corpo durante uma corrida. E isto requer tempo, muito tempo, a não ser que você possua uma genética favorável.
Em primeiro lugar, vamos pensar nos músculos. Nascemos com basicamente dois tipos de fibras musculares: as potentes e as resistentes, cada qual na sua devida proporção. Durante o período de preparação para uma maratona é preciso mudar toda uma condição muscular, desenvolvendo as fibras mais resistentes em relação às potentes. E somente este processo pode levar anos – acredite.
Em segundo lugar, é preciso adaptar o sistema que nutre estes músculos – ou seja, a maneira como a energia chega até eles. Para isso, é válido lembrar que existem três fontes principais de energia: carboidratos, proteínas e gorduras, que são consumidas nesta mesma ordem, sendo a primeira esgotada rapidamente a última, mais lentamente.
Na Maratona não é possível depender apenas de carboidratos e proteínas, a não ser que o atleta leve quilos de comida para ir comendo durante a prova (o que seria inviável). Para isso, os treinos servem para desenvolver um mecanismo onde a gordura é mais rapidamente recrutada para servir de fonte energética aos músculos – e, por isso, é praticamente impossível não perder gordura ao se preparar para uma prova como essa.
Continuando a falar da nutrição muscular, não podemos esquecer do coração. Existem diversos estudos que mostram uma alteração no tamanho dele em maratonistas, inclusive nos amadores. Isto ocorre por uma necessidade de mandar mais sangue até os músculos das pernas, por longos períodos, sem aumentar tanto a frequência cardíaca e sem sobrecarregar a musculatura do coração, mantendo a mesma eficiência para transportar o oxigênio, vitaminas e sais minerais ao corpo todo.
Outro órgão extremamente importante é o pulmão. Ele não aumenta como o coração, mas também se adapta para melhorar nosso rendimento. Melhora os mecanismos de expansão e captação de ar, fazendo com que aproveitemos a maior área pulmonar possível, colocando uma dose maior de oxigênio no sangue bombeado pelo coração.
Por fim, não podemos deixar de lembrar do aprendizado mecânico. É um termo que pode ser usado para resumir tudo que o corpo aprende ao longo dos treinos. A quantidade de força para cada passo, os músculos usados e a ordem de contração deles, a amplitude de cada articulação, a direção e sentido dos movimentos de pernas, tronco e braços, a associação com a respiração e o automatismo disso tudo, para que durante a prova você não gaste energia pensando em como deve se movimentar.
Note que todos estes itens citados não mudam de um dia para o outro.
São adaptações anatômicas e fisiológicas que levam anos e por isso é quase humanamente impossível sair do sedentarismo e correr uma maratona com menos de um ano de treinos, sem sofrer lesões. Portanto, tenha paciência se quiser correr os 42k algum dia. Se você já corre esta distância, agora já sabe por que não consegue mais ganhar naquelas apostas pra ver quem chega mais rápido no outro lado da rua! Mas relaxe…todo maratonista merece respeito! Por Marcel Sera