domingo, 3 de abril de 2016

"Osso duro de roer"

Assumo, sequer tentei, mas não é de hoje que me conheço e posso garantir, teria sido impossível disfarçar meu constrangimento com o artigo escrito por Wagner Moura, publicado na Folha de São Paulo quarta-feira passada.
Exageros do Judiciário, ingratidão, perseguições, preconceito, conjecturas desonestas e imprecisões convenientes; todos os argumentos comuns ao discurso governista estavam lá. De tão deletéria, a linha de raciocínio conseguiu empanar a própria rudeza do texto. Um feito.
Logo no parágrafo abre-alas, por exemplo - “Ser legalista não é o mesmo que ser governista, ser governista não é o mesmo que ser corrupto. É intelectualmente desonesto dizer que os governistas ou os simplesmente contrários ao impeachment são a favor da corrupção” - fica clara a intenção de abusar da ginástica retórica para encadear meias-verdades sorrateiras.
Desgraçadamente a marinização do debate voltou à moda, eu entendo, porém, fiquei na dúvida, Moura realmente achou que seduziria alguém sensato com um bobajada deste quilate?
Nessas horas pouco interessa o caráter da pessoa, do mais pudico ao canalha perfeito, tudo o que eu espero é um mínimo de macheza. Trata-se de uma expectativa razoável, convenhamos, quando o debate feroz toma conta das conversas, a economia definha e as instituições são questionadas.
Seja qual for a categoria do bizu, não resta escapatória, apoiar este governo corrupto, mesmo com tantas informações disponíveis, significa, sim, colaborar com bandidos inimigos da nação.
Questionar as razões que levam o sujeito a insistir ou adotar posição tão absurda, por outro lado, é um debate legítimo. Ignorância? Obtusidade? A tola percepção de que mudar de posicionamento atestaria fraqueza? Contrapartida com o governo que financia projetos pessoais?
Em outro momento trágico do artigo-panfleto, Wagner lamenta o “ódio cego por um governo que tirou milhões de brasileiros da miséria”, para em seguida ressaltar que, “em nome dessas conquistas”, não nega “as evidências de que o PT montou um projeto de poder amparado por um esquema de corrupção”.
Estabelecer ambas as situações nesta ordem, invertendo causa e efeito, não foi um deslize à toa.
Para acreditar nesta hipótese seria necessário esquivar-se de sugestões mentirosas como “você, que por ser contra a corrupção quer um país governado por Michel Temer”, “interceptações telefônicas questionáveis”, ou ainda “o fato de o ministro Gilmar Mendes promover em Lisboa um seminário com líderes oposicionistas”.
Ora, para começo de conversa, se alguém quer um país governado por Michel Temer são os eleitores da chapa Dilma-Temer. Sobre as escutas telefônicas, estas foram autorizadas pela Justiça, e portanto questioná-las assim, de maneira tão vazia, só pode significar a preferência pela diferenciação entre cidadãos perante a lei. Por fim, o seminário em Lisboa começou a ser organizado há um ano, e contará com a presença do ministro Dias Toffoli, do senador Jorge Viana (PT-AC), do ex-advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, entre outros ministros, advogados e professores, além de José Serra e Aécio Neves.
Wagner Moura tem todo o direito de opinar como bem entender, e até de simplesmente repetir o batido discurso torpe do comando petista. Pode inclusive se autoproclamar legalista, seja lá o que isto significa na atual conjuntura.
Assim como o nosso dever, de todo brasileiro farto com as patifarias comandadas pelo PT, é o de contestá-lo, de dizer basta, e de rejeitar a metralhadora midiática organizada por este governo com o auxílio da classe artística.
Chega a ser ofensivo constatar o pouco caso que fazem da inteligência e indignação do povo.
Na certa imaginam que os vários Mouras, Buarques, Abreus e Sabatellas ainda sejam capazes de, somente com suas pálidas presenças, mesmerizar as pessoas a ponto de fazê-las esquecerem a conta de luz, o tomate, as passagens, a falta de emprego, e principalmente os bilhões surrupiados.
Com toda a honestidade, já que esperar pelo encerramento unilateral de seus contratos com a golpista Rede Globo seria demais, sem falar na esculhambação ética que é defender um governo provedor de milhões pleiteados por eles mesmos via Lei Rouanet, acho até bom ver esse pessoal deixando a toca.
No fundo, ao ensaiar falsos puxões de orelha na esquerda para então ter a pachorra de falar em “golpe clássico”, o ator apenas comprovou a premissa básica de todo esquerdista: pau está liberado para bater em Francisco, desde que em Chico não encostem um dedo sequer.Mario Vitor Rodrigues
é escritor, apaixonado por gastronomia, futebol, séries e cinema. Já morou em Nova Iorque, Paris e, após uma temporada em Milão, está de volta ao Rio para finalizar seu próximo romance pela Nova Fronteira. Sempre no twitter @mvitorodrigues

"Pequenos assassinatos"

"Este foi o último artigo do jornalista Sandro Vaia, publicado neste blog em 04/03/2016. Sandro colaborou semanalmente com o blog desde 2009. Foi uma inteligência privilegiada, um jornalista de raro talento e um homem digno acima de tudo". Ricardo Noblat

A que ponto chegamos.
Aposto que você já ouviu essa frase em algum lugar que frequenta, ou na conversa com um amigo, um parente, um vizinho. Ou até mesmo na TV, na voz de um ministro do Supremo.
O que nós estamos vivendo aqui neste momento guarda alguma semelhança com a “teoria da janela quebrada” (broken windows theory), que é o resultado de um estudo realizado por dois professores de Harvard - um cientista político e um psicólogo criminologista - mostrando que há relação de causalidade entre desordem e criminalidade.
Em resumo, a tese é a seguinte: se uma janela do apartamento de um prédio quebrar a não for consertada imediatamente, as pessoas são levadas a crer que aquele apartamento está abandonado, já que ninguém se importa com ele, e esse abandono incentiva depredações de outras janelas, mais atos de vandalismo e até invasão do prédio.
Ou seja: quem não se preocupa com pequenos atos de marginalidade acaba sendo cada vez mais tolerante com a criminalidade em todos os seus estágios. Até que ela se instale definitivamente.
A confusão entre pequenos e grandes crimes acaba provocando uma perda de referência por onde se infiltra e se instala esse vírus de amoralidade, essa anomia que destrói os nervos e que corrói a alma do país.
Achar graça numa estrela vermelha que a primeira dama instala no jardim do Palácio da Alvorada é o primeiro vidro da janela quebrada. Desconhecer o que significa a promiscuidade entre público e privado, entre governo e partido, entre governo e Estado, entre Estado e partido, pode parecer uma minúcia, uma ridicularia, mas não é. Pelo menos em países sérios não é.
Quebrado a primeira janela, passa-se a zombar dos pequenos delitos, como se eles não fossem a pura ressonância dos delitos maiores: ah, o pedalinho dos netos do ex-presidente, ah, a canoa baratinha da dona Marisa, ah, o elevador privativo do tríplex do Guarujá.
Quanta implicância desses coxinhas, como se fosse normal alguém receber benesses de empreiteiras que vivem de contratos públicos e como se fosse normal recusar-se a prestar depoimentos solicitados pela Justiça sobre eles.
Perdido o referencial daquilo que separa a bravata ideológica do crime puro e simples, acontece isto: um sindicalista de nome Armando Tripodi, que foi chefe de gabinete do presidente da Petrobras entre 2003 e 2012, nas gestões José Eduardo Dutra e José Sergio Gabrielli, publica no site oficial da Petrobras a confissão de um crime e nada acontece com ele. Talvez tenha até sido elogiado pelo companheiro-chefe.
Num depoimento ao site institucional “Memória Petrobras” ele conta que usou o dinheiro do imposto sindical para fazer campanha para o companheiro Lula, e narra, cheio de orgulho, todos os lances de seu heroico crime. É proibido por lei usar dinheiro do imposto sindical para campanhas políticas, mas quem se lixa?
Se a janela está quebrada, o prédio está abandonado e tudo é permitido.
Da janela quebrada ao pântano moral em que o País mergulhou, a distância é mínima. Princípios morais não têm peso, nem largura, nem altura, nem espessura. Ou existem ou não existem.
A delação premiada de Delcídio do Amaral mostra não apenas que a janela está quebrada. Mostra que o prédio já ruiu em cima do governo, e mesmo que ele sobreviva, está irremediavelmente ferido de morte.
Sandro Vaia
Sandro VaiaJornalista, foi editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, da Agência Estado e do jornal “O Estado de S.Paulo”. Escreveu “A Ilha Roubada”, (Barcarolla) sobre a cubana Yoani Sanchez e "Armênio Guedes, Sereno Guerreiro da Liberdade

"Democracia não tem cor"

Assim como a maior parte dos interlocutores do governo e do PT, Dilma fala como mocinho e age como bandido
Intolerância, baixaria de todos os lados, muito fígado e nenhum cérebro. Assim tem sido o cotidiano da crise. Um clima de litígio aguçado cotidianamente na sede do Poder Executivo da República. Ali, a presidente Dilma Rousseff promove comícios travestidos de cerimônias oficiais em que a plateia - e ela própria - aplaude a incitação ao ódio, embora finja pregar o diálogo.
Na semana passada foram três. Um para lançar mais uma etapa do programa Minha Casa Minha Vida, que, embora reduzido na oferta e muitíssimo menor do que o prometido em campanha, forneceu combustível suficiente para os brados repetitivos de “não vai ter golpe”.
Depois vieram artistas e seus manifestos recheados de lugares comuns e falsidade intelectual, chegando ao cúmulo de equiparar a hipótese de um impeachment constitucional ao golpe de 1964 e ao regime de exceção implantado pelos militares, há 52 anos.
Para fechar a semana, Dilma reativou a adormecida reforma agrária, para a qual pouco ou nada fez em seus cinco anos de mandato, e distribuiu áreas desapropriadas a movimentos sem terra e quilombolas.
Ouviu, sem esconder a excitação, discursos exaltados com promessas de luta incansável para frear o seu impedimento.
Nos dizeres dos líderes dos autointitulados movimentos sociais, pipocaram desaforos à Justiça, personificados no juiz Sérgio Moro, condutor da Lava-Jato, que tantos incômodos tem trazido ao governo, ao PT e aliados e, em especial, ao ex Lula.
Dilma, a primeira mandatária, que deveria zelar pela instituição da Presidência, não fez nem cara feia.
Pior. Em vez de buscar baixar o tom, acusou os seus opositores: “eles exercem a violência, nós não”. Isso, poucos minutos depois de ouvir a incitação à violência feita pelo representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Aristides Santos, ao se referir a deputados da oposição. "Vamos ocupar as propriedades deles, as casas deles no campo. Vamos ocupar os gabinetes, mas também as fazendas deles.”
Assim como a maior parte dos interlocutores do governo e do PT, Dilma fala como mocinho e age como bandido.
Não que isso seja novidade. Ao contrário, é prática reincidente do petismo que se agudiza quando diminui o estoque de balas no coldre.
O mesmo PT que se vangloria de ter tirado o Brasil da miséria tergiversa sobre a crise econômica que sua fome de poder criou. Que desemprega e empobrece o país aos níveis de 25 anos atrás.
Fala como mocinho quando diz que conferiu independência ao Ministério Público – algo feito pela Constituição de 1988 que o PT não endossou - e à Polícia Federal. E, como bandido, busca obstruir investigações.
Diz-se inimigo das elites. As mesmas que custearam o projeto de poder do PT, hoje enroladas, denunciadas ou encarceradas. As tais elites, as mesmas que Lula sempre xingou em público e adulou no particular. As mesmas com as quais se locupletou.
Chamam de golpe o que sabem que não é. Culpam – como fez Lula – a Lava-Jato pelo caos na economia. Falam de diálogo, pregam a intolerância. O eterno “nós x eles”.
Sem saída, preferem não crer que o mundo de mocinhos x bandidos se esgota na infância. E que opostos absolutos, esquerda x direita, vermelho x amarelo, há muito se perderam em milhares de tons.
É nessa imensidão de cores que vive a democracia. E ela não tem cor.Mary Zaidan
Mary ZaidanÉ jornalista. E-mail: zaidanmary@gmail.com Twitter: @maryzaidan

sábado, 2 de abril de 2016

OS AGENTES DO GOVERNO CONTRA A LEI

O filósofo iluminista francês Barão de Montesquieu teorizou um dos pilares das repúblicas modernas. Defendeu, há mais de 200 anos, a independência e a harmonia entre os poderes Executivo, Judiciário e Legislativo. Um conceito que o ministro da Justiça, Eugênio Aragão, e o antecessor e agora chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), José Eduardo Cardozo, especializam-se em violar. Os dois usam os cargos de Estado para tumultuar investigações da Polícia Federal, denúncias do Ministério Público e decisões de magistrados em nome do governo da presidente Dilma Rousseff. Tornaram-se uma espécie de agentes contra a lei. Em entrevistas, Eugênio Aragão abandona a liturgia exigida para o cargo e parte ao ataque contra integrantes da operação Lava Jato, inclusive da Polícia Federal, subordinada a sua pasta. Chega ao ponto de condenar publicamente o juiz do caso, Sergio Moro, por suposta politização. José Eduardo Cardozo não fica para trás. Usa a estrutura do órgão para interesses de correligionários. Move ações que pedem a restrição de poderes de integrantes do Judiciário. Passou até a reunir juristas, durante o expediente, para fazer atos de desagravo ao ex-presidente investigado Luiz Inácio Lula da Silva e contrários ao impeachment. Não à toa, Aragão e Cardozo são alvos de críticas de entidades ligadas à magistratura, ao Ministério Público, a delegados federais e a advogados.


''Que o Supremo defina os limites para as autoridades policiais, o Ministério
Público e magistrados em relação às prerrogativas da Presidência da
República, ao sigilotelefônico e às situações que estão na lei''
Afirmou José Eduardo Cardozo ao falar das gravações de Lula. Entre elas
com Dilma. Ele tenta anular o uso dos áudios como prova.

A própria nomeação do Eugênio Aragão, subprocurador-geral da República, à pasta da Justiça gera controvérsias jurídicas. Ocorreu após o Supremo Tribunal Federal proibir Wellington César Lima e Silva, do MP da Bahia, de assumir o cargo. O STF entendeu que promotores e procuradores que ingressaram na carreira, após a Constituição de 1988, só podem trabalhar fora da instituição como professores. A regra foi criada junto a outras que garantem a independência do MP. O argumento deveria apear Eugênio Aragão do governo. Mas ele se segura por ter entrado antes na carreira. É algo legalmente questionável, mas moralmente reprovável. A indicação de Aragão contou com a pressão do PT como tentativa de controlar a Polícia Federal. Isto fica claro nas interceptações telefônicas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em que ele diz que o ministro da Justiça precisa “cumprir um papel de homem.” Na prática, intimidar e retaliar aqueles que investigam pessoas ligadas ao governo, como o próprio Lula. Empossado na quinta-feira 17, Aragão mostrou aos petistas a que veio. Deu declarações ameaçando agentes federais e disse que a PF está sob supervisão. Trata a entidade como um braço qualquer do executivo. Esquece-se que a Constituição diz que a Polícia Federal é uma polícia judiciária.


''Não é razoável, com o país num momento de quase conflagração,
que os agentes (federais) aproveitem esse momento
delicado para colocar gasolina na fogueira''
Disse o ministro da Justiça Eugênio Aragão em entrevista. O comentário
motivou um pedido de explicação do Superior Tribunal de Justiça (STJ)
Já o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo parece não entender a finalidade do cargo para o qual foi indicado: o de chefe da Advocacia-Geral da União (AGU). Dedica o seu tempo e a estrutura do órgão para fazer a defesa da presidente Dilma Rousseff no processo de impeachment. Um desvio de atribuição para muitos juristas. Quem está respondendo à ação de cassação não é o Estado, mas a pessoa física Dilma Rousseff. Ela tem de providenciar e custear a própria defesa. Durante o expediente, Cardozo ainda promove eventos em locais oficias com juristas ligados ao governo para denunciar o processo de impeachment. Neles, ofende o STF a classificar como golpe um procedimento que os ministros decidiram recentemente o rito. Invariavelmente, os encontros se tornam atos de desagravo ao ex-presidente Lula e movidos a críticas ao juiz Sergio Moro. O descontentamento dele com a Lava Jato é tamanho que colocou a AGU para ingressar com ações questionando prerrogativas de delegados, procuradores e juizes. Em uma delas, pretende que o STF estabeleça limites para autoridades responsáveis por investigações com relação a sigilo telefônico. Quer, no fundo, investir contra Moro pelo fato de o juiz ter exposto uma ligação interceptada entre Lula e Dilma. Os argumentos dele são frágeis, mas funcionam como arma na tentativa do Executivo de interferir no Judiciário numa tentativa de esconder malfeitos.
Fotos: AFP PHOTO/EVARISTO SA; Agência Brasil; 

Laudo comprova que a ex-primeira-dama Marisa Letícia assinou acordo de compra da cobertura da família Lula no Guarujá

Desde que surgiram as suspeitas de ocultação de patrimônio, a família do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nega que seja proprietária do tríplex no Guarujá. A cada nova prova, lança uma versão. E foram muitas tentativas para se livrar de investigações e denúncias de crimes, como lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Procuradores federais dizem que, nas próximas semanas, poderão usar o que chamam de “bala de prata do caso tríplex.” Até lá ficará pronta a perícia da proposta de adesão firmada pela ex-primeira-dama Marisa Letícia com a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop), em abril de 2005, para aquisição de uma unidade no Condomínio Mar Cantábrico, renomeado Solaris. O documento foi apreendido na 22ª fase da Operação Lava Jato em busca e apreensão na entidade. Chamou a atenção dos investigadores o fato de o acordo de compra do imóvel estar rasurado no campo que indica o número da unidade. Em primeiro plano, lê-se 141 como o apartamento em que a família Lula investiu. Só que é possível ver que a inserção do número ocorreu em cima de outro: o 174. Era esta a identificação da cobertura que a família Lula nega ser dona. O apartamento foi renumerado depois para 164 por mudanças na planta. Há ainda outro rabisco no papel que tenta esconder a palavra tríplex. Os investigadores solicitaram uma perícia para evitar recursos da defesa. Na prática, a manipulação não deixa margens a dúvidas de que a ex-primeira-dama chegou a optar pelo tríplex.

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A pedido de ISTOÉ, o perito Ricardo Molina examinou o documento. No laudo, ele atesta que o número 141 foi escrito em cima de outro. “(A análise) não deixa dúvidas de que o número existente antes da rasura era 174”, afirma. Outros riscos no documento complicam a família Lula. “Trata-se de uma cobertura com garranchos não legíveis, ou seja, meros rabiscos cuja aparente intenção seria apenas de cobrir a escrita original. Apesar da intensidade dos rabiscos sobrepostos, fica evidente que a escrita original era a palavra “tríplex”. As letras “t”, “r”, “i” e “x” estão bem definidas. Ora, não existe qualquer outra palavra na língua portuguesa, que não seja “tríplex”, que combine esse conjunto de letra”, atesta. Para Molina, a análise do documento mostra que as alterações foram realizadas para mascarar propositalmente os escritos que se encontravam embaixo.
Para os investigadores, a rasura do termo de adesão comprova delito digno de pena de quatro anos de reclusão a quem tiver realizado e justifica até prisão preventiva. Eles acreditam que integrantes da Bancoop, cooperativa ligada ao PT, tentaram alterar a prova. Desde o começo, o ex-presidente evitou dizer que seu apartamento possuía um número. Afirmava que tinha apenas uma cota do empreendimento. Desmentido por depoimentos e entrevistas de proprietários em reportagem publicada por ISTOÉ em janeiro, o instituto que leva o nome de Lula lançou a nota “Os documentos do Guarujá: desmontando a farsa”, em que declarou que o apartamento escolhido era o 141. Mesmo assim, não mostrou proposta de adesão do imóvel assinado. Mas por que, então, adulterar e não sumir com o documento ou fazer um novo? Se o termo sumisse, as suspeitas se ampliariam, já que a Bancoop mantém a documentação de outros imóveis. Criar outro seria arriscado.“Tratando-se de documento com número de série e já impregnado com visíveis marcas do tempo, uma falsificação recente deixaria marcas muito evidentes”, afirma o perito Molina. Na casa do ex-presidente Lula, a Polícia Federal apreendeu um termo de adesão em branco do tríplex.

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É DELA 
Apesar de negar, ex-primeira-dama Marisa Leticia assinou termo para adquirir o tríplex
Como ISTOÉ mostrou na última edição, a decisão da Justiça paulista de enviar a denúncia sobre o caso tríplex do Ministério Público paulista para a Justiça Federal do Paraná trouxe o compartilhamento de provas robustas. Os promotores pediram a prisão do ex-presidente, entre outros, pelos crimes de lavagem de dinheiro e de falsidade ideológica. Os depoimentos colhidos pelo Ministério Público indicam que a Bancoop alterou a numeração dos apartamentos para que a cobertura do tríplex tivesse vista para o mar. Confirmam que Lula visitou o apartamento. A ex-primeira também acompanhou as reformas de mais de R$ 700 mil pagas pela OAS do imóvel que diz nunca ter sido dela.

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Foto: Ueslei Marcelino 
POR Pedro Marcondes de Moura

Bancos entram em estado de alerta em relação à Odebrecht, que tenta renegociar dívidas. Empreiteira envolvida com a quadrilha Lula-Dilma

Sinal amarelo Os bancos brasileiros entraram em estado de alerta em relação à Odebrecht. Dos cerca de R$ 100 bilhões que o grupo deve, ao redor de R$ 35 bilhões estão nas mãos de instituições brasileiras, segundo os últimos dados públicos do grupo. Hoje, há R$ 6 bilhões livres no caixa da holding. A cúpula da Odebrecht entende que precisa de um acerto “ambicioso” com os bancos, que garanta liquidez, enquanto fecha um acordo de leniência com o governo e tenta vender parte de seus negócios.

Mãos à obra A avaliação é que a negociação com os bancos, apesar de dura, é possível. Nos bastidores, porém, a recuperação judicial não está mais descartada caso a situação financeira piore. Oficialmente, a empresa nega que irá recorrer à medida.
Afeta o resultado BB, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander fizeram empréstimos vultosos ao grupo e fazem as contas: caso a recuperação judicial seja adotada, terão de registrar imediatamente em seu balanço, como possível perda, de 30% a 70% do que deram.
Você por aqui? Antes de protocolar o pedido de impeachment contra Michel Temer na Câmara, Cid Gomes esteve em gabinetes no Planalto.
Limpa geral Aliados de Temer foram orientados pelo vice a não falar sobre a composição de um novo governo. Reservadamente afirmam que, se houver impeachment, a tendência é de uma troca geral dos postos na Esplanada.
Essa aí passou Nas últimas conversas que teve em Brasília durante a semana, o ex-presidente Lula se queixou de lentidão e da falta de sensibilidade do governo. Questionou a vários aliados: “Como deixamos a crise chegar a esse ponto?”.
ademar
Ecos do passado Muita gente se assustou com a operação Carbono 14, deflagrada nesta sexta (1). “Do jeito que a coisa vai, vão investigar a participação da Dilma no assalto ao cofre do Ademar [ex-governador Ademar de Barros]”, diz um petista.
Por ora, não O PRB jura que não recua do rompimento com o governo. Integrantes da sigla só admitem mudar de opinião após as eleições municipais. Isso se, naturalmente, Dilma vencer.
Foco na urna Manter distância da presidente é visto como essencial para preservar as candidaturas a prefeito do deputado Celso Russomanno, em SP, e do senador Marcelo Crivella, no Rio.
Ih, fora! O Planalto, aliás, não conta com o voto a seu favor no impeachment de nenhum candidato nas eleições municipais deste ano.
Podem olhar? José Carlos Aleluia (DEM-BA) entrou com representação na Procuradoria da República no DF contra Guilherme Boulos, coordenador do MTST, por suposta incitação ao crime e formação de milícia particular.
Fazendo graça “Ele apareceu na CPI dos Anões, no escândalo das ambulâncias e na lista de caixa dois de Furnas. Está querendo reciclar a aparição pública”, diz Boulos.
Tentativa e erro João Doria ligou para Alberto Goldman antes que ele entrasse com representação na Procuradoria Eleitoral acusando o empresário de compra de votos nas prévias. Não  demoveu o ex-governador da ideia.
Climão A relação entre as duas famílias tucanas está estremecida. Bia Doria chegou a dizer que Deuzeni Goldman, mulher de Goldman, era “ingrata”, pois já havia ganhado um carro num sorteio promovido por seu marido.
Visita à Folha Márcio Fernando Elias Rosa, procurador-geral de Justiça do Estado de São Paulo, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Arnaldo Hossepian Junior, conselheiro do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Painel - Folha de São Paulo


"Tristes tempos"

Tristes tempos em que até o dicionário foi corrompido. Para alguns, um instrumento constitucional é definido por golpe, mesmo se houver prova de crime pela presidente; para outros, o uso deste instrumento se justifica diante da corrupção e do desgoverno, antes mesmo de analisar provas do crime.
Tristes tempos quando o debate político se limita ao enfrentamento entre dois grupos que se acusam mutuamente de corruptos ou de golpistas.
Um lado preocupado apenas em interromper um governo legal, mas que perdeu a legitimidade, por ser inoperante, incapaz de conduzir as reformas sociais e econômicas de que o país precisa, contaminado pela corrupção; o outro concentrado na defesa deste governo a qualquer custo, cego aos erros e às mentiras; chegando ao ponto de dizer que o desemprego decorre da luta contra a corrupção.
Ambos acreditam que, depois da decisão sobre o impeachment, aprovado ou recusado, o país retomará seu rumo, seja sob o novo governo Temer ou o velho governo Dilma.
Não se vê debate sobre como: retomar o crescimento do PIB e fazê-lo contemporâneo com o avanço técnico e científico; distribuir a renda; erradicar o analfabetismo; assegurar educação de qualidade para cada criança independente da renda dos pais e da cidade onde mora; como recuperar nosso abismal atraso na capacidade científica e tecnológica e de inovação; como aumentar a produtividade, garantir estabilidade monetária e fiscal, equilibrar as contas públicas, controlar os endividamentos; como atender à saúde, enfrentar a violência urbana, dar sustentabilidade à Previdência; como emancipar os pobres da necessidade de bolsas e cotas. Parece que o Brasil real desapareceu.
Tristes tempos em que a política se faz sem percepção da história. Como se estivéssemos em um campeonato de futebol, com apito final depois de cada eleição. Não se discute as causas atuais e históricas que nos condenam.
Nem se considera que, no dia seguinte ao impeachment, se aprovado, mesmo com a credibilidade de novo presidente, todos os problemas continuarão, inclusive as suspeitas sobre os políticos; e que os derrotados irão para as ruas em nome da luta contra o que, acreditam, foi um golpe.
Tampouco se discute que, se o impeachment não passar, a população, indignada e desencantada, continuará nas ruas com apoio crescente de desesperados, desempregados, empobrecidos, manifestando-se contra um governo desacreditado e submetido a outros pedidos de impeachment.
A solução estaria em uma eleição antecipada, seja para todos os cargos ou apenas para presidente e vice-presidente. Havendo aceitação dos principais atores, isto é possível com uma reforma constitucional.
Mas, é pequena a probabilidade de aceitação de uma medida de bom senso, diferente das propostas pelo debate simplista e imediatista do impeachment ou não impeachment.
Cristovam Buarque
Cristovam Buarqueé professor emérito da UnB e senador pelo PDT-DF