sexta-feira, 1 de abril de 2016

"Um elenco de golpistas",



Já vivi vários golpes de Estado e todos me pegaram de surpresa. Nada demais nisto, nunca participei de qualquer governo, nem podia saber que havia um golpe em curso. O incrível é que esses golpes pegaram de surpresa também os governos que derrubaram. Claro -ou não seriam golpes.
O golpe que vem sendo denunciado pelo governo Dilma é diferente. Dá-se à luz do dia, tramado por 73% da população, que desaprova o dito governo, sob as barbas do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, de membros do STF, da Procuradoria Geral, do Ministério Público, da Polícia Federal, da OAB e de outras instituições da República, que nada fazem para impedi-lo, e obedece a um complexo ritual de trâmites, todos com data marcada com meses de antecedência.
E, contrariando a natureza dos golpes, em que os golpistas atuam embuçados e na sombra, neste eles vêm à boca de cena e se identificam publicamente.
Na terça última (29), inúmeras categorias profissionais ocuparam as páginas dos jornais dizendo que gostariam de ver a presidente pelas costas. E se assinaram: fabricantes de sorvete, chocolate, biscoitos, balas, doces e derivados; plantadores de milho, cana e amendoim e produtores de óleos e azeites, leite, soja e macarrão.
Sindicatos das indústrias de tintas e vernizes, cerâmicas e olarias, parafusos, porcas, rebites e similares, de artefatos de metais ferrosos e não ferrosos, de curtimento de couros e peles e de extração de mármores, calcários e pedreiras.
Industriais da cerâmica de louça e porcelana, da recauchutagem de pneus e retífica de motores e do beneficiamento de fibras vegetais e descaroçamento de algodão. Alfaiates, gráficos, farmacêuticos, misturadores de adubos, criadores de suínos e controladores de pragas urbanas. Etc. etc. etc.
Nunca se viu um elenco tão variado de golpistas.

por Ruy Castro-Folha de São Paulo

"Contrato de Marcos Valério levou Lava Jato a alvos da 27ª fase"



A descoberta de contrato apreendido pela Polícia Federal, em março de 2014 – quando foi deflagrada a Operação Lava Jato – no escritório da contadora do doleiro Alberto Youssef, Meire Pozza, levou os investigadores ao empresário Ronan Maria Pinto e seus negócios com o PT. O empresário e o ex-secretário-geral do partido Silvio Pereira foram presos temporariamente nesta sexta-feira, 1, alvos da 27ª batizada de Operação Carbono 14.

É um contrato de mutuo, no valor de R$ 6 milhões, de 2004 envolvendo a a empresa 2S Participações Ltda, do publicitário Marcos Valério, a Expresso Nova Santo André, do empresário Ronan Maria Pinto, de Santo André – investigado na morte do prefeito petista de Santo André, em 2002 -, e a Remar Agenciamento e Assessoria. Assinam os representantes da 2S e da Remar.

No mesmo ano, 2004, o Banco Schahin concedeu um empréstimo para o pecuarista José Carlos Bumlai – preso desde novembro do ano passado, pela Lava Jato – de R$ 12 milhões. O valor, segundo admitiu o amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi tomado por ele a pedido do PT. Ele e um dos delatores dos processos citaram os nomes de Silvio Pereira e do ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares – levado coercitivamente para depor hoje – na operação.




“Constatou-se que Jose Carlos Bumlai contraiu um empréstimo fraudulento junto ao Banco Schahin em outubro de 2004 no montante de R$ 12 milhões. O mútuo, na realidade, tinha por finalidade a “quitação” de dívidas do Partido dos Trabalhadores(PT) e foi pago por intermédio da contratação fraudulenta da Schahin como operadora do navio-sonda Vitória 10.000, pela Petrobras, em 2009, ao custo de US$ 1,6 bilhão”, informou a força-tarefa da Lava Jato.

“A partir de diligências, descobriu-se que, do valor total emprestado de R$ 12 milhões a Bumlai, pelo menos R$ 6 milhões tiveram como destino o empresário do município de Santo André (SP), Ronan Maria Pinto.”

Mensalão. O Ministério Público Federal sabia, desde 2012, da existência de um negócio que envolveria R$ 6 milhões e os investigados do mensalão. O publicitário mineiro Marcos Valério, operador de propinas no mensalão, afirmou em tentativa de delação premiada naquele ano – quando seria condenado – que dirigentes do PT pediram a ele R$ 6 milhões. O dinheiro seria destinados ao empresário Ronan.

Segundo Valério, isso serviria para que o empresário de Santo André parasse de “chantagear” o ex-presidente Lula, o então secretário da Presidência, Gilberto Carvalho, e o então ministro da Casa Civil, José Dirceu – preso desde março, pela Lava Jato, em Curitiba.Ronan tentava relacionar Lula, Carvalho e Dirceu a suspeitas de corrupção na cidade que teriam motivado o assassinato do prefeito Celso Daniel, em 2002 – a conclusão da polícia paulista é de que ele foi vítima de um crime comum, não político. Bumlai teria sido uma das pessoas que teria atuado nesse episódio de suposta compra do silêncio do empresário de Santo André.

O empresário negou qualquer relação com o caso, e disse não conhecer nem Bumlai nem Marcos Valério.

Contrato confidencial. Dois anos depois das afirmações de Valério, em delação que acabou não sendo fechada, o contrato dos R$ 6 milhões da empresa do publicitário envolvendo empresa de Ronan foi apreendido no escritório da contadora de Youssef durante as buscas da Lava Jato.

O material intitulado “Enivaldo confidencial” seria um contrato “referente a um proprietário de uma empresa de ônibus de Santo André/SP” que era guardado a “sete chaves”, contou Youssef em seu termo de delação 25, prestado em 26 de outubro de 2014.

“(Youssef) sabia que Enivaldo Quadrado tinha os documentos guardados no escritório de contabilidade de Meire Pozza, a pedido daquele, por uma questão de resguardo pessoal”, explicou Youssef. Questionado pela força-tarefa da Lava Jato sobre o que ele temia, o doleiro disse não saber, mas era algo que guardava “a sete chaves”.

“Enivaldo Quadrado disse que preparou a triangulação de pessoas que figurariam em tal contrato”, explicou Youssef. “O contrato foi feito entre a empresa de Marcos Valério, istó é, a 2S Participações Ltda, e uma outra empresa que Enivaldo indicou.” A empresa, para os investigadores, é a Remar. Para isso, o ex-dono da Bônus-Banval “receberia dinheiro ou algum outro favor”, contou.

Segundo o doleiro, quem pediu para que Enivaldo Quadrado fizesse o documento “era uma pessoa ligada ao Partido dos Trabalhadores – PT, chamada Breno Altman”. “Sabe que Breno Altman é ligado ao PT, pois o declarante (Youssef) foi a Cuba duas vezes realizar negócios e o mesmo estava presente. O pai de Breno foi um dos fundadores do PT”, registra a força-tarefa, no termo de delação.

Breno Altman é jornalista e consultor internacional, com relação próxima com o ex-ministro José Dirceu. Ele nega qualquer envolvimento no caso, diz nunca ter visto Bumlai. Ele foi levado coercitivamente para depor, nesta sexta-feira, alvo da Operação Carbono 14.

“Indagado sobre o que motivou Breno a realizar tal operação, foi o fato de que o PT estaria sendo ameaçado por conta do caso ‘Celso Daniel’, de maneira que a documentação foi preparada para atender a determinada pessoa, que seria o proprietário de uma empresa de ônibus.”

O doleiro disse que não poder especificar o tipo de chantagem estaria envolvida, mas que ela “objetivava que tal pessoa ‘ficasse quieta’ em relação ao Caso Celso Daniel”.

Os procuradores da Lava Jato afirmaram nesta sexta-feira, 1, que “para fazer os recursos chegarem ao destinatário final, foi arquitetado um esquema de lavagem de capitais, envolvendo Ronan, pessoas ligadas ao Partido dos Trabalhadores e terceiros envolvidos na operacionalização da lavagem do dinheiro proveniente do crime contra o sistema financeiro nacional”.

“Há evidências que apontam que o Partido dos Trabalhadores influiu diretamente junto ao Banco Schahin na liberação do empréstimo fraudulento. Para chegar ao destinatário final Ronan Maria Pinto, os investigados se utilizaram de diversos estratagemas para ocultar a proveniência ilícita dos valores e a identidade do destinatário final do dinheiro obtido na instituição financeira.”

COM A PALAVRA, RONAN MARIA PINTO

Nota – Esclarecimentos – Ronan Maria Pinto

Sobre a Fase da Operação Lava Jato

Nota Ronan Maria Pinto

Há meses reafirmamos que o empresário Ronan Maria Pinto sempre esteve à disposição das autoridades de forma a esclarecer com total tranquilidade e isenção as dúvidas e as investigações do âmbito da Operação Lava Jato, assim como a citação indevida de seu nome. Inclusive ampla e abertamente oferecendo-se de forma espontânea para prestar as informações que necessitassem.

Mais uma vez o empresário reafirmará não ter relação com os fatos mencionados e estar sendo vítima de uma situação que com certeza agora poderá ser esclarecida de uma vez por todas.

Solicitamos à imprensa atenção a essa nota e mais seriedade e sobriedade na apresentação do empresário, assim como nas informações e afirmações que vêm sendo feitas e divulgadas. Todas as denúncias que o envolveram ao longo dos anos foram ou estão sendo investigadas e Ronan Maria Pinto vem sendo defendido e absolvido. A mais recente, uma sentença de primeira instância, onde houve condenação, encontra-se em grau de recurso.

Essas são as informações.

Aguardamos mais detalhes sobre a totalidade da Operação.

Cordialmente,

Assessoria de Imprensa

Atenciosamente,

"Operação Lava Jato se aprofunda em extorsão por assassinato de Celso Daniel."

Deflagrada nesta sexta-feira, a Operação Carbono 14, a 27ª fase daLava Jato, se aprofundou na extorsão ao PT pelo assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel. Desde novembro do ano passado, os investigadores já tinham rastreado que pelo menos metade de um empréstimo de R$ 12 milhões concedido pelo banco Schahin ao pecuarista José Carlos Bumlai tinha sido desviado ao empresário Ronan Maria Pinto, que ameaçava implicar figurões do PT na investigação da morte do prefeito. Recentemente, os investigadores concluíram o rastreamento de como esse dinheiro chegou ao empresário em operações de lavagem de dinheiro e conseguiram provas de que esse dinheiro foi utilizado pelo empresário para comprar o jornal Diário do Grande ABC.
Foram expedidos mandados de prisão temporária contra o ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira e o empresário Ronan Maria Pinto. Se o empresário virar um delator, as investigações vão se aprofundar ainda mais rápido em um tipo de crime até então inédito para a Operação Lava Jato, o homicídio.
Também foram cumpridos mandados de condução coercitiva contra o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o jornalista Breno Altman, ligado ao PT.
A chantagem ao PT foi revelada inicialmente pelo operador Marcos Valério Fernandes de Souza, que prestou depoimentos em uma tentativa de acordo de delação premiada que foi rejeitada pelo Ministério Público depois do mensalão. Nos depoimentos, ele contou que o empresário Ronan Maria Pinto ameaçava envolver dirigentes do PT nas investigações do assassinato do prefeito de Santo André. Mas o acordo foi rejeitado e as investigações não prosseguiram. Só no ano passado o assunto voltou à tona, quando o lobista Fernando Soares, o Baiano, disse em acordo de delação premiada que ouviu a mesma história do pecuarista José Carlos Bumlai.
Bumlai confessou que tomou o empréstimo de R$ 12 milhões doBanco Schahin para honrar compromissos do PT. O empréstimo foi quitado de maneira fraudulenta, sem a recuperação do dinheiro pelos donos do banco. A família Schahin foi recompensada com um contrato de US$ 1,6 bilhão para operação de uma sonda da Petrobras.
Todo a trajetória do empréstimo foi rastreada pela Receita Federal, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. O dinheiro foi repassado por Bumlai ao frigorífico Bertin e, de lá, seguiu, em alguma parte, para um empresário carioca que chegou a transferir pelo menos uma fração de R$ 210 mil em 2004 ao ex-controlador do Diário do Grande ABC que tinha parcelado a venda do jornal para Ronan Maria Pinto. Na ocasião, o jornal era vendido em parcelas de R$ 210 mil para Pinto.Daniel Haidar - Epoca

"Quadrilha do PT teme instabilidade de Silvinho, alvo da nova fase da Lava Jato"

Integrantes da cúpula do PT manifestaram, nesta sexta-feira (1º), preocupação com a nova fase da Operação Lava Jato. Os petistas estão especialmente tensos com a detenção do ex-secretário-geral do partido Silvio Pereira, o Silvinho, que, em 2003, detinha a lista de todos os ocupantes de cargos da Esplanada dos Ministérios e seus padrinhos políticos.
Desde o mensalão, Silvinho tem rompantes e envia recados ao comando do PT. A avaliação de petistas é que, sob pressão, ele seria capaz de "falar qualquer coisa", mesmo o que não sabe.
Já Delúbio Soares é apontado como mais centrado e não causa tanta apreensão. Breno Altman, por sua vez, é tido como um braço do ex-ministro José Dirceu e é conhecido como uma pessoa resiliente.
O ex-secretário-nacional do PT Silvio Pereira e o empresário e dono do "Diário do Grande ABC" Ronan Maria Pinto tiveram suas prisões decretadas pela força-tarefa da Lava Jato. Já o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o jornalista e diretor editorial do site "Opera Mundi" Breno Altman são alvos de condução coercitiva.
Denominada de "Carbono 14", a 27ª fase, deflagrada nesta sexta, investiga crimes de extorsão, falsidade ideológica, fraude, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.
Segundo o Ministério Público Federal, a operação investiga um suposto esquema de lavagem de capitais de cerca de R$ 6 milhões provenientes de gestão fraudulenta no Banco Schahin, cujo rombo foi coberto depois pela Petrobras.
Pedro Ladeira - 21.jan.2014/Folhapress

"Velhos fantasmas ressurgem para reforçar petrolão"

A Operação Carbono 14, nova fase da Lava Jato, uniu os três maiores escândalos que envolveram o PT e seus principais dirigentes neste século: o assassinato de Celso Daniel, prefeito de Santo André, em 2002, o mensalão, em 2005, e o petrolão de agora.
Os petistas preferem ver os casos como estanques, cada um com sua própria lógica e narrativa. O PT, forçado pelas circunstâncias de cada momento, reconhece alguns erros, mas se vê vítima de uma reiterada campanha de difamação, em que o único ponto em comum é a tentativa de destruir o partido e seus governos. Não conseguiram na morte de Daniel, tentaram de novo no mensalão e agora voltam à carga com a Lava Jato, reza o credo petista.
O que a nova operação da Lava Jato faz é criar uma nova história. Há sólidas evidências de que não existem três casos isolados, mas um único enredo de corrupção e apropriação do Estado em que o modus operandi se prolonga no tempo. Personagens se reencontram e pulam de um escândalo para outro.
Isso já havia sido verificado em parte com as prisões do ex-ministro José Dirceu, primeiro no mensalão, agora no petrolão. Mas o que a nova operação revela é algo maior. O ainda inexplicado assassinato de Celso Daniel, na época coordenador do programa de governo do candidato Lula, retorna como o fato fundador da associação do PT à criminalidade pesada.
O empresário Ronan Maria Pinto, personagem de proa àquela época, é apontado como destinatário de R$ 6 milhões de um empréstimo fraudulento do Banco Schahin, articulado por um amigo de Lula, para não contar o que sabe sobre o assassinato. Silvio Pereira e Delúbio Soares, dois dos protagonistas do mensalão, novamente voltam à berlinda como facilitadores dessa operação. Marcos Valério de Souza, o operador do esquema de financiamento ilegal que quase derrubou Lula naquela época, corrobora a operação para silenciar Ronan.
Para a presidente Dilma Rousseff, às vésperas de uma dura votação sobre seu impeachment, e para Lula, pessoa muito próxima de vários dos implicados nos diversos escândalos, o cenário não poderia ser pior. Velhos fantasmas adormecidos ressurgem para reforçar as suspeitas de agora. Para o PT, o 1º de abril de 2016, excepcionalmente, pode ser chamado não de Dia da Mentira, mas dos Mortos, ou das Bruxas.

por Fábio Zanini-Folha de São Paulo

OPÇÕES DE RISCO

Faltando pouco mais de vinte dias para a votação da abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, o governo e seus aliados optaram por radicalizar o discurso e os atos públicos no Palácio do Planalto.
O salão nobre das solenidades comandadas pela presidente passou a lotar com plateias formadas por militantes dos movimentos sociais convidados para agregar clamor de manifestação e claque de encomenda a cada palavra “golpe” pronunciada por Dilma.
Depois que cinco ministros do Supremo deram entrevistas esclarecendo que o ato do Congresso afastar um mandatário está previsto na Constituição, o bordão da presidente passou a ser “impeachment sem crime de responsabilidade é golpe”.
Do ponto de vista tático, radicalizar por meio de palavras de ordem e verdadeiros comícios dentro das instalações do Palácio do Planalto é uma opção. Tem vantagens e desvantagens. Na verdade, mais desvantagens, já que o governo deveria trabalhar com a perspectiva de construir o futuro e não se atrelar ao desespero, atitude típica do perdedor.
Ao optar pela radicalização, o governo passa algumas mensagens. Para seus arraiais, uma demonstração de força da resistência. Para os mais equilibrados, a opção demagógica motivada pela ausência de perspectivas. Aos demais, sinal grave de imaturidade institucional.
Na prática, ao estigmatizar o processo como golpe o governo dá muitos tiros no próprio pé: eleva desnecessariamente a temperatura do debate, acentua a política do “nós contra eles”, isola-se quando mais precisa de pontes.
Principalmente depois que os juristas Miguel Reale e Janaina Botelho demonstraram com sólidos argumentos que houve, sim, crime de responsabilidade. E não apenas um, mas vários, prejudicando principalmente os mais carentes, com inflação, desemprego e suspensão de pagamento de planos. Hoje será a vez da defesa, comandada pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, expor suas razões na Comissão do Impeachment.
Nas últimas semanas, mesmo quando havia pedidos de calma de lado a lado, o governo optou por espicaçar o PMDB. Que aceno envia aos aliados com um comportamento desse? Que prefere a imposição, a força. Ao invés de tentar promover a aglutinação e lutar com elegância para se salvar, separa ainda mais.
Imagine que o governo venceu a batalha na Câmara. Não haverá muito o que fazer com pouco mais de 172 votos. Irá governar por medidas provisórias? Será muito difícil enfrentar mais de 300 deputados motivados a prosseguir tentando o impeachment. A batalha não se encerraria no primeiro pedido. Seria mais uma vitória de Pirro, tal qual foi a eleição de Picciani para líder do PMDB.
Vitórias desse tipo não têm grande utilidade se não restar pedra sobre pedra para reconstruir uma base razoável. Perder em política é sempre ruim. Mas ganhar de qualquer jeito é péssimo.
Radicalizar é uma opção de risco que, entre outras coisas, agride o bom senso e a inteligência, artigo escasso no atual governo. Esquecem que quem pode salvar a presidente do impeachment não é o PT. Tampouco o PCdoB. Murillo de Aragão
Murillo de Aragãoé cientista político

De moedas e trocas

No subtexto de tudo o que está sendo dito, negociado e noticiado sobre a possibilidade de impeachment e de substituição da presidente Dilma Rousseff pelo vice Michel Temer está a pergunta que não quer calar: um eventual governo Temer terá condições de frear ou, ao menos, atenuar o ímpeto da Lava Jato? Ainda não se sabe a resposta, mas ela – ou as suposições que se fazem em torno dela – terá importância crucial na votação do impeachment num Congresso cheio de acusados.
Afinal, acima e além das barganhas em torno de cargos e outros brindes, está a Lava Jato. Mais do que ter um ministério ou uma diretoria de estatal, quem está ou pode estar nela quer salvar a própria pele e escapar da cadeia. A esta altura, para muita gente, a sobrevivência é a principal moeda de troca.
Incomodado com rumores sobre um hipotético “acordão” em que prometeria salvar cabeças políticas em troca de apoio ao impeachment, o próprio Temer aproveitou almoço com empresários nesta quinta para desmentir qualquer “operação abafa”. Disse que é um constitucionalista e que respeita as instituições. Afiançou que a Lava Jato continua se ele virar presidente.
Disso ninguém duvida, e não se imagina o vice, uma vez investido na presidência, dando ordens para suspender operações, amarrando a Policia Federal e tentando interferir em instituições independentes como o Ministério Público. Nada em sua longa vida pública como jurista e político autoriza tal previsão.
Nessa mesma vida pública, porém, o professor de Direito Constitucional Michel Temer construiu um perfil que junta habilidade política a bom trânsito junto a instâncias do Judiciário, Ministério Público e instituições da área jurídica, incluindo o STF. E há uma longa distância entre tentar abafar ostensivamente uma operação midiática como a Lava Jato e fazer articulações discretas e pontuais para reduzir seu ritmo, atenuar efeitos e tornar seus lances menos drásticos e dramáticos.
É isso o que, segundo alguns, Temer pode fazer. Conseguindo aprovar o impeachment pela Câmara e sua autorização pelo Senado, o vice assumiria o governo provisoriamente e teria o prazo de 180 dias que o Senado pode levar para julgar a presidente para um test drive. Se mostrar serviço e operar uma pacificação em torno da Lava Jato, teria grandes chances de ver o Senado de Renan Calheiros e outros condenar a presidente da República e ficar de vez na cadeira.
Teria lá seus argumentos junto ao Judiciário e a outras instituições envolvidas na investigação: o país não aguenta mais sangrar a reboque das surpresas da crise política, a economia necessita de reformas urgentes e inadiáveis, é preciso recuperar a confiança interna e externa e mostrar que há governo.
Se a página da Lava Jato, com seus sobressaltos diários, não for virada, dificilmente haverá Legislativo para levar esses planos adiante. Afinal, os acusados na Câmara e no Senado estão, em muitos casos, no topo da hierarquia parlamentar – aquela que comanda votos, sessões, presenças e ausências, inclusive na votação do impeachment.
Apesar das negativas, portanto, a possibilidade de redução na voltagem da Lava Jato é hoje a barganha das barganhas, a mãe de todos os acordos: entrega a cabeça da presidente da República e de mais alguns próceres do Legislativo – possivelmente, a do presidente da Câmara, Eduardo Cunha – e o pessoal da Lava Jato dá uma trégua, passa a trabalhar mais devagar e com menos estardalhaço. Os demais acusados, a maioria com foro no STF, ganham no mínimo tempo. Talvez muito tempo.
Como, na atual crise, um dia é da caça e outro do caçador, e a verdade que se tem de manhã nunca é a mesma da noite, é difícil prever o que vai acontecer. A semana que começou emparedando o governo com o rompimento do PMDB termina bem mais amena para o Planalto, com a divisão dos peemedebistas, a aproximação com PP, PR e outros partidos menores, a farta distribuição de cargos e mais uma manifestação a seu favor nas ruas. Impossível dizer hoje se vai ou não haver impeachment.
O certo é que qualquer negociação envolvendo a mais midiática operação policial e judicial da história do pais terá que ser combinada com os russos. E, diferentemente do que se pensava, os russos não estão mais morando em Curitiba. Espalharam-se pelo Brasil inteiro.
Helena Chagas
Helena ChagasHelena Chagas é jornalista desde 1983. Exerceu funções de repórter, colunista e direção em O Globo, Estado de S.Paulo, SBT e TV Brasil. Foi ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (2011-2014). Hoje é consultora de comunicação